SOMOS TODOS FRANCESES. Andam por aí uns cavalheiros que não escondem a satisfação pelos acontecimentos em França. Andam mas não deviam, e não só porque é indecente. Acham que os governos franceses devem pagar a incúria de anos? Que se fartaram de fingir que não existia o problema que têm em mãos? Que se têm pautado pela arrogância e pela superioridade moral? Pois bem, só que o que se passa em França pode alastrar ao resto da Europa, como os casos da Bélgica e da Alemanha deixam antever. Ao resto da Europa mas não só à Europa, que tudo o que é mau propaga-se com uma rapidez espantosa. Além disso, é bom não confundir os governantes com o povo francês, que é quem paga a factura. Não tem a Europa, pelo menos alguns países da Europa, o mesmo problema que a França, capaz de explodir de uma hora para a outra? A resposta é óbvia: alguém lhes vai mandar a factura, mais tarde ou mais cedo. Eu sei que é barato criticar a política francesa dos últimos anos, a arrogância face aos americanos. Também não custa nada dizer que «estavam mesmo a pedi-las», como se disse dos americanos no 11 de Setembro. Só que não se deve ir por aí, até porque é o povo que paga os erros dos governantes e não é seguro que a coisa se fique pelos franceses. Com certeza que, em França, seria bom que a coisa se resolvesse com a demissão do ministro do Interior, que se comportou de forma desastrosa ao não ver além das aparências, mas não me venham dizer que ele é o culpado pelo clima instalado, que isso é procurar um bode expiatório a qualquer preço. O problema de França é outro, e foi diagnosticado há anos. De França e, repito, de outros países europeus. Como não foi curada a tempo, a doença só podia dar no que deu. Resta saber se ainda tem cura, se a coisa vai ficar por aqui. Até lá, sejamos todos franceses. [Originalmente publicado em 10-11-2005]
SCOLARI. Luiz Felipe Scolari é conhecido dos portugueses por ter ganho o Mundial de 2002 e por ter levado Portugal à final do Euro2004. Fora isso, que não é pouco, o brasileiro é famoso pela teimosia, estatuto que parece cultivar com deleite. Convocar guarda-redes que não jogam nos seus clubes — para já não falar do «caso Vítor Baía» — e ter o desplante de dizer que lhe chega o empate quando toda a gente espera mais do que isso face a equipas como o Liechtenstein, são decisões que não lembra ao diabo — e não deixam ninguém indiferente. Eu próprio, que não vivo o futebol de forma arrebatada, não gostei de o ouvir dizer que o empate nos servia, mesmo sabendo que assim era. Aliás, estou convencido de que as coisas com o Liechtenstein não correram da melhor maneira justamente por causa disso, e não devo ser o único. Mas tudo isto são opiniões, e opiniões há muitas. O que importa é não perder de vista o essencial, e o essencial são os objectivos. Não foram eles atingidos no Euro2004 e, agora, com o apuramento para o Mundial? Pois é, também eu nunca apreciei a arrogância de José Mourinho, mas isso não me impede de reconhecer que José Mourinho atinge os objectivos a que se propõe. Mais: ultrapassa-os largamente, e seguramente que não é só por mérito alheio. De maneira que sou obrigado a render-me às evidências, pois são as evidências que contam. E não me custa nada dizer que elas me obrigam a que lhes tire o chapéu. [Originalmente publicado em 24-10-2005]
PORTO CASEIRO. Não sei se já contei o episódio em que estive à beira de ficar sem nove garrafas de Porto caseiro. Sim, nove garrafas de Porto caseiro. A coisa passou-se no último Verão, no embarque de Lisboa para Newark, ao que julgo por causa de uma garrafa que me ofereceram à última hora que resolvi arrolhar de qualquer maneira. O funcionário da segurança começou por implicar com a rolha, a seguir com a falta de rótulo nas garrafas. Quem lhe garantia a ele que aquilo era vinho do Porto? Pedia desculpa, muita desculpa, mas as garrafas não podiam embarcar. Comecei logo a transpirar, a deitar contas à vida — mas não me dei por vencido. Argumentei que não sabia; que sempre tinha viajado com garrafas e nunca me chatearam; que entendia que eram ordens que cumpria; que da próxima vez não voltava a acontecer. O funcionário deu mostras de ceder, mas foi-me avisando que o polícia do controle seguinte não ia em conversas. Agarrei-me ao argumento como um náufrago a uma bóia, e daí a pouco já o benemérito expunha o caso ao polícia, demonstrando que, por ele, não havia problema. O polícia mirou e remirou as garrafas, olhou para mim e para o meu anjo-da-guarda — e sugeriu-me que as metesse numa mala da próxima vez, pois numa mala ninguém queria saber. Um mês e tal após o episódio, registo o incidente enquanto contemplo as quatro garrafas que me restam. Contas por alto, mais um mesito e acabou-se. É a vida. A vida dos que não se podem dar ao luxo de beber uma pipa por ano, como o ex-proprietário de uma famosa marca de Porto que morreu de velho e não me consta que tenha passado por semelhantes apertos. [Originalmente publicado em 5-10-2005]
O MANUEL. O empregado que costuma servir-me o almoço trabalha 13 horas por dia. Ao que sei, não é excepção, pois todos os empregados dos restaurantes aqui da área trabalham mais ou menos esse tempo. Deve ser por isso que, nos dias de folga, o encontro a almoçar no restaurante onde trabalha. Afinal, para onde haveria de ir nos dias de folga? Que mundo haverá além do restaurante onde trabalha 13 horas por dia, seis dias por semana? Diz-me Manuel (chamemos-lhe Manuel) que um colega foi despedido porque a gerência o achou «distraído». Achou a gerência e achou o Manuel, que as distracções dos colegas resultam em mais trabalho para quem não se distrai. De facto, revendo mentalmente o colega, lembro-me de o ver distraído — e um empregado de restaurante aqui da área não tem tempo para estar distraído. Tem que estar com a cabeça no que está a fazer 13 horas por dia, seis dias por semana, e do resto ninguém quer saber. Caso assim não seja, é certo e sabido que não vai dar conta do recado — e que acaba no olho da rua. Um dia contaram-me que Manuel, ainda sob o efeito da anestesia por causa de uma intervenção cirúrgica, desatou a berrar ordens para o cozinheiro. Não fiquei surpreendido. Afinal, depois da conversa das 13 horas por dia, Manuel passou por mim, parou por instantes, e disparou: «tenho os filhos criados, mas não os vi crescer». E desapareceu a berrar ordens para o cozinheiro antes que eu fosse capaz de articular uma simples palavra. [Originalmente publicado em 15-9-2005]
ZANGA DE COMADRES. Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. É o que parece no caso do vereador da Câmara do Porto, e as coisas também são o que parecem. Paulo Morais diz que foi pressionado, por membros do actual e anterior governos, no sentido de ceder às pretensões dos lóbis imobiliários; que, na maioria das câmaras, o urbanismo é «a forma mais encapotada e sub-reptícia de transferir bens públicos para a mão de privados»; que «as corporações tomam o poder dentro dos partidos»; que «os dirigentes são marionetas ao serviço dessas corporações»; que a democracia está a ser subvertida. Resumindo, Paulo Morais denunciou um conjunto de situações que se presume que terá combatido enquanto vereador da Câmara do Porto, o que lhe terá valido o afastamento da lista da coligação liderada por Rui Rio às próximas Autárquicas. Ora, a ser assim, isto coloca uma dúvida: será que o vice-presidente da autarquia portuense teria denunciado a negociata caso não tivesse sido afastado da lista? Sim, porque custa a crer que o cavalheiro tenha deixado de ser ingénuo de um dia para o outro, e ainda mais que denuncie o que toda a gente está farta de saber como se tivesse acabado de descobrir a pólvora. Além de que, em vez de remeter para as «memórias», seria de esperar que tivesse ido mais longe, nomeadamente que chamasse pelos nomes as pessoas e projectos de que fala. É que, assim, as denúncias não se distinguem das que faria o mais pacato dos cidadãos — e fica tudo na mesma. Pior: fazer dele um herói, como já vi por aí quem lhe chamasse, chega a ser obsceno. [Originalmente publicado em 30-8-2005]
ACTORES. Cada vez me sinto mais próximo da chamada gente comum e mais longe dos «eruditos». Quero dizer os «eruditos» que não perdem uma ocasião para nos tentar convencer que são eruditos, aquela espécie de gente que passa a vida a dizer lugares-comuns e não é capaz de defender uma ideia, muito menos uma ideia saída das suas próprias cabeças. É que gente comum é autêntica, diz banalidades sem se importar com o que deles pensam. Já os «eruditos» gostam de Agustina mas nunca leram, adoram Lopes Graça mas não sabem quem é. O sr. Amadeus é um prodígio, mas não há nada como o Fado da Desgraçadinha. Pessoa é admirável, especialmente se não tiverem que ler nada do que ele escreveu. Van Gogh é um génio, mas não distinguem Van Gogh de Chagall ou Monet, que não distinguem de Cézanne ou Dali. Gente comum não faz cenas destas. Gosta de bola e gaba-se disso, lê a Maria e não a esconde. É contra os pretos porque sim, e contra os chineses porque também. Gente comum é verdadeira até quando mente; os «eruditos» são mentira até quando falam verdade. Diz o ditado diz que mais vale ser do que parecer, mas a prática está sempre a demonstrar o contrário. Deve ser por isso, aliás, que cada vez há menos gente verdadeira e cada vez mais actores. Digo actores que representam tão mal que desconfio que nem os próprios convencem. [Originalmente publicado em 15-8-2005]
VERÃO QUENTE. Lia eu as aventuras de Artur Corvelo quando uma magnífica pequena se sentou atrás de mim. Ia naquela parte em que o autor de Esmaltes e Jóias acordava numa pensão reles ao lado de uma catraia de aspecto medonho, mas poucos minutos bastaram para que eu me esquecesse do personagem de Eça. A pequena começou por pedir conselhos sobre o que havia de comer. Quis saber se a comida vinha assim ou assado, se não seria melhor frito ou cozido. O empregado, coitado, gaguejava umas sugestões muito mal-amanhadas, e esforçava-se por ignorar o decote. Entretanto, o serviço do restaurante degradou-se rapidamente, pois os empregados estavam cada vez mais atentos aos movimentos da pequena, e cada vez mais surdos para o resto da freguesia. Como a donzela estava sentada mesmo atrás de mim, obrigando os olhares a convergir na minha direcção, aproveitei para observar os mirones. Havia de tudo: rostos iluminados pela lascívia, e quem só se atrevia a um olhar fugidio; respeitosos pais de família, e quem já não ia lá das pernas; algumas mulheres incomodadas, e outras com inveja de não estar no lugar dela. De repente, a donzela pôs-se de pé e saiu porta fora com o mesmo aparato com que entrou: despidíssima, andar que nem sei, dúzias de olhos em cima dela. As conversas subiram de tom, e estalaram risadas aqui e ali. A ordem regressou ao restaurante, e lá pude eu voltar ao Eça. Ao Eça que tão bem descreveria uma cena destas, e que poria o Artur Corvelo a sentir «uma vibração de concupiscência» da nuca aos calcanhares em vez de lamentar ter acordado ao lado de uma matrona que não sabia quem era e com os beiços «ainda roxos de vinho da véspera». [Originalmente publicado em 29-7-2005]
BASTA! Alberto João Jardim diz que os jornalistas são uns filhos da puta e o Presidente da República acha que nada tem a dizer. Alberto João Jardim diz que não quer chineses e indianos na Madeira e o Presidente da República faz de conta que não é nada com ele. Ora, o que significam estes silêncios? Que se trata de assuntos sem importância? Que Alberto João Jardim chegou a um ponto que pode dizer o que quiser e fazer o que lhe apetecer sem que alguém se atreva a tocar-lhe? Sim, eu ainda me lembro de ver o Presidente da República correr para a Cova da Moura por causa de um «arrastão» que ainda estou para saber se existiu. A aplicar-se o mesmo princípio, seria de esperar outra atitude do Presidente da República face às últimas declarações do Presidente da Madeira, tanto mais que elas foram proferidas por quem devia ser o último a fazê-lo. Não quer o Presidente da República «entrar em polémicas com os governantes regionais»? Mas porque não? Porque não há-de o Presidente da República entrar em polémicas com quem for preciso sempre que se trate de cumprir o seu dever? Com certeza que é mais cómodo ficar quieto e esperar que a coisa passe — e sempre que se trata das tropelias de Alberto João Jardim a coisa passa com uma rapidez impressionante. Mas parece-me evidente que o dever do Presidente da República seria condenar, com clareza e frontalidade, as declarações do governante madeirense, e não reduzir o episódio a uma condenação atabalhoada do que foi dito. O Presidente da República devia ter em mente este pequeno detalhe: pior que as patacoadas e atropelos à lei de Alberto João Jardim só o silêncio ou as críticas envergonhadas dos políticos, nomeadamente dos políticos que detêm o poder. Até porque está mais que visto que a estratégia não resulta, e como princípio não se recomenda. [Originalmente publicado em 6-7-2005]
REVISÃO PRÉVIA. O episódio que envolveu o secretário de Estado da Administração Interna e um semanário regional, mais exactamente a retirada das bancas da última edição do Notícias de Vila Real por causa de uma entrevista que terá sido publicada naquele semanário sem a revisão prévia do entrevistado, teve o condão de trazer para a ribalta um problema que nunca deveria sair dela: as relações do poder com os media, neste caso do poder político com os media regionais. Como sobreviver na província sem o apoio das autarquias? Como divulgar uma notícia que põe em causa a honorabilidade do político A se o político A controla a empresa que mais anuncia na rádio? Como publicar uma reportagem que vai pôr a nu a mediocridade do político B se o político B pode liquidar o jornal? Tirando casos excepcionais, é evidente que não podem. Os proprietários dos media regionais precisam dos anunciantes locais (não há alternativas para os anunciantes que se perdem), da protecção dos políticos da região, de sobreviver. Resumindo, precisam de estar bem com todos. E estar bem com todos implica não ver o que interessa não ver, fazer os fretes mais descarados, baixar as calças quando for preciso. O caso Ascenso Simões, que terá retocado o retrato que dele deu o semanário a quem concedeu uma entrevista, é um bom exemplo da relação entre o poder político e os media regionais. Pena é que casos como este só raramente venham a público, mas é preciso não esquecer que quem os pode divulgar é o primeiro interessado em escondê-los. Custa admitir que assim seja, mas as coisas são o que são. [Originalmente publicado em 23-6-2005]
MÚSICA. Como julgo ter acontecido praticamente a toda a gente da minha geração, não tive educação musical. Na escola, lembro-me vagamente de umas aulas a que chamavam canto coral, que aproveitei para não pôr lá os pés (quando o professor não marcava faltas) ou para chatear o professor (quando decidiu marcar faltas). Fora isso, a vida ensinou-me que a música se dividia em dois grupos: a que dava para dançar (a boa), e a que não dava. Mais tarde descobri a crítica musical, que consumi em doses que não recomendo a ninguém. Graças a ela comecei a gostar de música a sério, tomei conhecimento de subtilezas que até então me escapavam, tornei-me mais exigente. Mas foi graças a ela, também, que passei a ouvir música com demasiados conceitos — e não menos preconceitos. Chegou a tal ponto a «erudição» que a análise técnica (chamemos-lhe assim) quase anulou a parte lúdica, pois ouvir música tornou-se um exercício em vez de um prazer. Diagnosticada a maleita, nunca mais li uma crítica. Mais: cada vez me interessa menos saber quem estou a ouvir. Naturalmente que uma decisão destas teve consequências: é frequente confundir alhos com bugalhos, nomeadamente no repertório clássico, até músicas que conheço de cor. Mas como a ideia é fruir a música de forma inteiramente livre, a questão tornou-se secundária. Aliás, nem isso, pois cheguei a um ponto que só me interessa o prazer. O resto pode ser muito interessante — e certamente que é — mas deixou de me interessar. Mas não se julgue que tenho alguma coisa contra a crítica. Bem pelo contrário: acho que a crítica tem uma função meritória. Só que quando me falam de crítica apetece-me logo responder como García Márquez quando lhe perguntaram o que pensava dos críticos literários que analisavam a sua obra: «A mi me gustan mucho los críticos, principalmente quando jugan fútbol.» [Originalmente publicado em 9-6-2005]
FITAS. O cineasta que ficou famoso por ter consumido «uma pequena quantidade de haxixe» num país onde se pode ser condenado a uns anos de cadeia por consumir uma pequena quantidade de haxixe resolveu «aconselhar» o Governo português a «disponibilizar mais informações sobre os países» e suas leis. Após ter sido libertado graças aos esforços da diplomacia portuguesa, o cavalheiro ainda teve o desplante de afirmar: «espero que o meu caso sirva de lição». E lição a quem? Evidentemente que ao Governo português, que o devia ter posto ao corrente de que não se pode consumir haxixe no Dubai. Aguarda-se, agora, que o artista anuncie um pedido de indemnização ao Governo português. Sim, porque o que se passou há-de ter causado danos irremediáveis à imagem do cineasta, além de que é inadmissível o Governo português não ter informado o ilustre cidadão de que é proibido consumir haxixe no Dubai. Ridículo? De maneira nenhuma. Não fosse o caso de o Executivo em funções beneficiar de uma estranha benevolência, ninguém duvide que se teria exigido a demissão de um ministro e meio secretário de Estado, até porque o diplomata que tratou do caso não tem dúvidas de que o incidente provocou um «fortalecimento de laços» entre Portugal e o Dubai — e o Ministério dos Negócios Estrangeiros já fez saber que vai «retribuir o tratamento excepcional» que as autoridades do Dubai deram ao caso. De maneira que o mínimo que se pode esperar do Governo é que não hesite em conceder um subsidiozito ao nosso cineasta quando este decidir fazer a sua obra-prima. Além de caber ao Governo a obrigação de apoiar obras que se afigurem capazes de levar o nome de Portugal além da Trapobana, nunca é demais agradecer a quem tanto fez pela Pátria. [Originalmente publicado em 20-5-2005]
LAGARTIXAS E JACARÉS. Sempre que resolvo chamar a atenção para um trabalho excepcional — uma peça jornalística, um quadro, um filme — a conversa resvala de imediato para o autor. «Então tu não sabes que o gajo é judeu? Não sabes que o fulano tem uma equipa enorme atrás dele, que lhe faz a papinha toda? Não sabes que a mulher dele dorme com o manda-chuva lá do escritório?» Não sabia. Não sabia nem isso é relevante para o que eu quero dizer, tento argumentar, mas ninguém quer saber. Bem pelo contrário: não me achando convencido, atacam com novos «factos», se preciso for inventados na hora, e o «monstro» cresce de tal forma que o autor havia de pedir desculpa por ter feito o que fez caso soubesse destas conversas. Se o que pretendo elogiar se situa na área em que os meus interlocutores se movem — profissionalmente, academicamente, artisticamente — o caso ainda é pior, pois da insinuação passam à calúnia pura e dura. Quer isto dizer que me resta meter a viola no saco, pois é tal a fartura de «argumentos» contra o autor que o trabalho para o qual procuro chamar a atenção acaba por ser um pormenor sem importância — e de que ninguém quer saber. Infelizmente não é de uma excepção que se trata, pois há sempre alguém disposto a deitar abaixo quem faz coisas de que não é capaz. Bem sei que nada disto constitui novidade, mas convém estar vigilante. É que gente desta é capaz de tudo, e não faz cerimónia sempre que se trate de liquidar o parceiro. Pena é que não tenham a mesma habilidade para fazer tão bem ou melhor o que procuram desvalorizar. Mas há um ditado que diz: quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré. [Originalmente publicado em 3-5-2005]
COISAS SIMPLES. Toda a gente tem uma opinião acerca do conflito israelo-palestiniano, mas poucos sabem a origem e o que se joga no conflito israelo-palestiniano. Toda a gente tem uma opinião acerca da intervenção militar no Iraque, mas poucos conhecem as razões que levaram à intervenção militar no Iraque. Toda a gente tem uma opinião acerca do véu islâmico, da despenalização do aborto ou da regionalização, mas poucos sabem o que significa o véu islâmico, o que diz a lei do aborto e quais são as vantagens da regionalização. Refiro-me, é claro, à maioria das pessoas, aos que distraidamente se informam nas televisões, incluindo assuntos cuja complexidade não se compadece com a informação superficial das televisões — e sobre os quais, por essa razão, os devia inibir de ter opiniões. Aos que quanto menos informados estão mais opiniões têm — e mais sólidas pretendem ser. Sem dúvida que esta gente não vai além dos lugares-comuns — muitíssimo mais seguros para quem nada sabe acerca do que está a dizer, embora isso não invalide que os digam com convicção. Mas eu chego a pensar que tenho um problema quando me apercebo que toda a gente tem certezas absolutas sobre os mais variados assuntos e eu permaneço na dúvida — e garanto-vos que não estou a brincar, pois não é raro acusarem-me de não ver o que toda a gente diz ser evidente. Aliás, devo ter mesmo um problema — o problema de achar que as coisas são mais complexas do que parecem, de complicar o que é «simples». O problema de dizer «não sei» quando, de facto, não sei. [Originalmente publicado em 15-4-2005]
A PUTA DA VIDA. Estou condenado a viver entre quem não lê um livro, não ouve música, não vê um filme. Digo um livro que não seja O Código da Vinci ou Sei Lá, música que não seja Eminem ou Quim Barreiros, um filme que não seja o Rambo ou coisa parecida. E não lêem um livro porque dizem não ter tempo para ler, não ouvem música porque nunca é oportuno ouvir música que não seja a do costume, não vêem um filme porque um filme que saia da «normalidade» requer uma predisposição especial. Mas sabem eles que o escritor Fulano é gay, que o compositor Sicrano vive com aquela catraia que fez Pelo Buraco da Fechadura, e que o realizador Beltrano foi apanhado numa casa de putas. E conhecem, claro está, todos os lugares-comuns que sobre eles se dizem, que eles não são parvos e estão bem «informados». Eles sabem, por exemplo, que o escritor Fulano é um prodígio — embora nunca tenham lido uma linha do que ele escreveu; que o compositor Sicrano é um génio — por razões conhecidas de todos que os dispensa de explicar; e que o realizador Beltrano é divino — apesar de os ter feito adormecer ao cabo de dez minutos. Ora, é precisamente isto que me chateia. Que eles não queiram saber dos livros, de música ou de cinema, é lá com eles. Mas que me queiram tomar por parvo, e que eu tenha de fazer de parvo para não me chatear, incomoda-me. Mais de que nada ter a ver com esta gente, incomoda-me passar por um deles — e ser por eles tratado como um deles. Infelizmente nada posso fazer para mudar este cenário. Quando muito, enfiam a carapuça caso me leiam, e acham que eu tenho a mania. É a puta da vida. Deles, e da minha. [Originalmente publicado em 25-3-2005]
HIPOCRISIA. Por muito que custe admitir a crentes e não-crentes, a recusa de um padre franciscano em dar a comunhão aos católicos que usem contraceptivos, recorram à reprodução assistida ou aceitem a lei sobre a interrupção da gravidez é um acto corajoso que merece aplauso. A forma encontrada pelo clérigo para fazer o aviso — um anúncio num jornal — poderá ter sido algo bizarra, mas o conteúdo parece-me inquestionável. Mais: o padre Serras Pereira teve a coragem de chamar a atenção para uma evidência que todos fingem não ver, incluindo o Cardeal Patriarca, que se apressou a considerar «exagerado» o texto em causa e a dizer que não reflecte a posição oficial da Igreja — apesar de o franciscano invocar o Código de Direito Canónico e a tese por ele defendida ser a mesma do Papa. Quem é o católico que não sabe que a santa madre igreja condena o uso de contraceptivos, a reprodução artificial e a lei do aborto? Quem é o responsável da Igreja Católica que não sabe que os fiéis pecam alegremente contra estes e outros preceitos? Evidentemente que toda a gente sabe. O problema é dizê-lo de forma clara e audível, pois a Igreja Católica prefere a hipocrisia à frontalidade. Dir-me-ão que eu, como ateu, não tenho nada com isso. Para mais, sou a favor dos contraceptivos, da reprodução assistida e da lei do aborto — tudo práticas que a Igreja condena. De facto, assim é. Mas incomoda-me tanta hipocrisia, e que os representantes da Igreja Católica se tenham apressado a executar um membro do clã cujo pecado foi chamar a atenção para o óbvio. Incomoda-me que um padre seja obrigado a recorrer a um «truque» para chamar a atenção de uma evidência, e que os padres «liberais» façam passar a ideia de que aceitam o que, de facto, condenam. Incomoda-me, por último, a mentira generalizada, o faz-de-conta que está tudo bem e assunto encerrado. Incomoda-me porque estou convencido de que estamos perante um caso em que mais vale mexer no que pode não cheirar bem que suportar o cheiro da hipocrisia. [Originalmente publicado em 10-3-2005]
O CÓDIGO. Você já leu O Código da Vinci?, perguntaram-me um dia destes. Apeteceu-me responder que tinha mais que fazer, tomara eu tempo para ler outras coisas, mas achei mais prudente dizer que não li. Ou melhor, respondi que ainda não tinha lido, deixando a ideia de que ia ler. As razões da defensiva foram duas: porque não estava para me chatear (o meu interlocutor tinha lido e gostado do livro); porque me faltam argumentos para dizer que O Código faz parte de um género de livros que não me interessa. É claro que qualquer investigaçãozita chegaria para exibir meia dúzia de argumentos em defesa da minha ideia, mas eu acho que o assunto nem isso merece. Mas não é esta a questão que aqui me traz. O que realmente me interessa salientar sobre este episódio é o seguinte: o que haverá de tão interessante nas chamadas teorias da conspiração? Por que será que todas elas assentam em factos errados, deturpações, mentiras, omissões, suposições? Por que será que as teorias da conspiração partem da conclusão para os factos e não o contrário? Um mistério que talvez se explique com o facto de a maioria das pessoas estar mais predisposta a acreditar na mais tosca mentira que na mais flagrante verdade — além de preferirem uma mentira a ficar na dúvida. Seja lá como for, um negócio de milhões em que os leitores são, seguramente, os que menos ganham. [Originalmente publicado em 23-2-2005]
BOATOS E INSINUAÇÕES. Tirando as organizações que fazem questão de alardear o orgulho de ser isto ou aquilo, toda a gente concorda que a orientação sexual de cada um só a cada um diz respeito. Mas todos sabemos, também, que assim não acontece, pois toda a gente quer saber da sexualidade de toda a gente — e a mais leve insinuação ou boato de que alguém não é «normal» transforma-se logo em certeza, especialmente se o visado optar pelo silêncio. Se um vizinho é suspeito de ser homossexual, o bairro inteiro não tem dúvidas de que o vizinho é homossexual. Se uma colega é suspeita de ser bissexual, ninguém tem dúvidas de que é bissexual. Ora, se isto é verdade para cidadãos anónimos, quando se trata de figuras públicas não há fronteiras. Nem fronteiras, nem limites. Assim sendo, pouco ou nada havendo a fazer para contrariar situações destas, resta aos visados minimizar os estragos. E, para minimizar os estragos, eu só vejo uma de duas saídas: desmentir de forma clara e inequívoca a acusação de que se é alvo, ou assumir a condição de que se é acusado. Como nada disto sucedeu até agora no caso José Sócrates — o líder do PS limitou-se a dizer que era tudo mentira, mantendo em reserva a sua orientação sexual —, estão criadas as condições para que as insinuações e boatos prossigam e continuem a render audiências — além de que sempre haverá situações que se prestem a ser interpretadas como insinuações e gente mal-intencionada disposta a tudo. Com certeza que o líder do PS tem toda a legitimidade para não revelar a sua orientação sexual, mas é bom não esquecer que o direito de reserva acaba por ser, também ele, uma forma de alimentar insinuações e boatos. Daí que a fuga para a frente me pareça infinitamente melhor que o silêncio, pois o silêncio deixa tudo como está. E, como está, a situação não dignifica ninguém. Não dignifica quem se mete a fazer insinuações, nem dignifica quem é alvo delas. Mais: contrariamente ao que julgo ser o pensamento dominante, ninguém ganha com isso. Não ganha quem insinua, nem ganha quem é vítima. Pelo contrário: ambos perdem. [Originalmente publicado em 7-2-2005]
FOGUETÓRIO. «Os portugueses não percebem que os clubes tenham milhões de euros para comprar jogadores e não tenham para pagar as dívidas ao Fisco», disse o ministro das Finanças. Vai daí, decidiu obrigar a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga dos Clubes a cumprir o estabelecido há meia dúzia de anos, alegando que o acordo então alcançado (o famoso «totonegócio») estipula que os dois organismos paguem a diferença caso as receitas provenientes do Totobola não sejam suficientes para liquidar metade da dívida dos clubes até ao segundo semestre do ano transacto. Quer isto dizer que a Federação e a Liga poderão ter que pagar as dívidas em atraso acrescidas de juros, isto na melhor das hipóteses. Na pior, poderão ver penhorados alguns bens, nomeadamente os «passes» dos jogadores. Porém (há sempre um porém nos negócios da bola), o ministro foi dizendo que está disposto a dialogar, uma maneira de dizer que está pronto a ceder. Pior: Bagão Félix admitiu que se fosse presidente da Federação ou da Liga não pagaria um tostão. Do lado da Federação, o sr. Madaíl fez logo saber que a organização que dirige ficou «estupefacta pela falta de diálogo», e acusou o ministro de tomar uma medida «popular». O presidente da Federação alega que o Estado «nada fez para evitar o descalabro das receitas» do Totobola — que os responsáveis dizem ter perdido em abundância e que os clubes, segundo o tal contrato, vão ter que pagar. Pinto da Costa disse que as declarações do ministro são uma forma de desviar as atenções, que as verbas devidas pelos clubes são «uma gota no oceano», e que Bagão Félix é «ignorante». Isto há umas semanas. Agora, quando já se pensava que o assunto estava encerrado, o ministro veio lembrar que «os clubes não terão um tratamento favorável», e que o Ministério das Finanças não abdicará da cobrança da dívida — a bem, ou a mal. Demagogia pura e simples? Eu tenho Bagão Félix como um homem sério, sensato e competente. Mas como está de abalada, confesso que isto me cheira a foguetório, tanto mais que o presidente do Sporting acabou de dizer que os clubes «não devem nada» à administração fiscal. Assim sendo, está-se mesmo a ver que a questão vai sobrar para o sucessor — ou talvez para o sucessor do sucessor. Quando a questão se tornar inadiável, é só mudar de modo a ficar tudo na mesma. [Originalmente publicado em 22-1-2005]
A LAMÚRIA. Como toda a gente sabe, o governo de Santana Lopes era mau. Como era mau o anterior, o anterior do anterior, e o anterior do anterior do anterior. Alguém conhece algum governo que tenha sido bom? Eu não conheço. Quer dizer, não me lembro de um governo que a oposição tenha dito que era bom. Isto não só em Portugal, está bom de ver, pois não é diferente no resto dos países onde vigoram regimes democráticos. Quer isso dizer que não há governos bons? A resposta é sim para quem acha que os governos agiram correctamente, não para quem acha o contrário; sim para quem é da mesma cor de quem está no governo, não para quem está na oposição; sim quando os governos tomam decisões que nos beneficiam, não quando nos prejudicam. E por aí fora, pois razões não faltarão para demonstrar que sempre foi assim, e sempre assim será. Tudo isto para dizer que fico de pé atrás sempre que ouço alguém dizer que o governo é uma «catástrofe», uma «tragédia» ou calamidade do género. Este ou outros governos, e pela simples razão de que andamos a ouvir isto há séculos e Portugal ainda não foi varrido do mapa — além de que não me lembro de ver uma oposição elogiar uma medida tomada por um governo. Quando muito, isso acontece quando o governo passou à história, e só uma vez na vida. Aliás, chega a ficar a ideia de que o papel da oposição nos regimes democráticos se resume a falar mal do governo — não porque o governo faça tudo mal, evidentemente, mas porque é preciso criar a ideia de que está tudo mal para chegar ao poder. Esta é a lógica que me faz pensar duas vezes quando sinto vontade de falar mal do governo, deste ou doutros governos. Além de que é bom não esquecer que falar mal do governo é um óptimo assunto quando há falta dele, e um verdadeiro desporto. Mas já não tenho tantos escrúpulos quando se trata de falar mal dos políticos, estejam eles no governo ou na oposição. Afinal, tirando um ou outro, os políticos são aldrabões, incompetentes, medíocres. E gente assim não merece contemplações. [Originalmente publicado em 6-1-2005]
UM CLÁSSICO. Raramente vou a um concerto de música clássica cuja principal finalidade é inaugurar (ou encerrar) um evento. Para ser mais preciso, fujo destes concertos como o diabo foge da cruz. Como os apreciadores de música clássica saberão, há demasiados assuntos laterais num concerto do género que perturbam a fruição musical, e já foram algumas as vezes que de lá saí com os nervos em franja. Isto porque grande parte do público não vai ao concerto pela música mas pelo acontecimento social, pois toda a gente sabe que é de bom-tom ir a um concerto de música clássica — e é preciso não esquecer que um concerto de música clássica é um excelente local para ver e ser visto. Escusado será dizer que, para esta gente, a pior parte do concerto é o concerto propriamente dito. Dez minutos chegam e sobram para ficarem a suspirar e a olhar para o relógio — e é precisamente isto que me chateia. Sentir gente à minha volta a suspirar e a olhar para o relógio, enerva-me — e uma vez enervado já não consigo fruir o concerto. Bem sei que o concerto propriamente dito acaba por ser um castigo (inteiramente merecido) para essa gente, o que não deixa de ter a sua graça. O problema é que eu já vi vezes de mais esse filme, e mesmo o que é bom cansa quando ingerido em doses exageradas. Além de que sempre me deixam com uma dúvida: o que sentirão os concertistas quando sabem (e tenho a certeza que não ignoram) que o público está ali por outras razões que não a música que eles vão executar? Será que não os incomoda o facto de saber que aquela gente está ali pelos cabelos, mortinha que aquilo acabe? Ou será que, perante um cenário desses, chega a haver músicos que sentem prazer em massacrar aquela gente? Um mistério. Um mistério em que eu prefiro não pensar quando vou a um concerto de música clássica. Mas, se penso, não vou. [Originalmente publicado em 17-12-2004]
ANTES QUE SEJA TARDE. Consta que o Benfica tem um sábio ao seu serviço — um tal Dembo Cassama —, que terá dito umas coisas que não devia por não lhe terem pago o que diz ter direito. Eu acho bem. Não que não paguem ao sábio o que ele diz ter direito, mas que o Benfica tenha um sábio ao seu serviço — mesmo em part-time ou pago à peça. Afinal, o que distingue o trabalho deste cavalheiro do trabalho dos psicólogos que tratam os jogadores? Mais: um psicólogo não promete vitórias (julgo ou). Já um sábio como o sr. Dembo, se lhe pagarem a tempo e horas, não só promete como é capaz de cumprir. Mais ainda: o sábio às vezes acerta, coisa que o psicólogo nem se atreve a tentar (julgo eu) — e só dá despesa. Além disso, o sr. Dembo trabalha por objectivos, e isso é uma vantagem de monta. Se o objectivo for atingido, desembolsa-se a maquia. Se não for, um manguito para o cavalheiro. Bem sei que os alhos que o sr. Oliveira terá mandado espalhar no balneário da selecção portuguesa no último Mundial de Futebol antes de não sei que jogo não trazem boas recordações aos portugueses, mas já não se pode dizer o mesmo com a Senhora de Caravaggio do «nosso» Felipe. De maneira que eu acho muito bem que o Benfica pague ao sr. Dembo o que ele achar que lhe é devido. Se não houver dinheiro, vendam o sr. Veiga. Seguramente que não faltarão compradores para o sr. Veiga, e certamente que os benfiquistas não se importarão de gastar algum para se verem livres dele caso não haja. Além disso, não é boa política viver sob a ameaça de um sábio descontente. Pelo sim, pelo não, paguem-lhe o que ele diz ter direito. Antes que seja tarde. [Originalmente publicado em 1-12-2004]
O MEDO. Uma sondagem divulgada esta semana indica que 90% da população holandesa quer ver reforçada a luta contra o terrorismo, mesmo à custa das liberdades individuais. Mais: 40% dos holandeses veriam com muito bons olhos que os muçulmanos (os muçulmanos, repare-se, não os fundamentalistas islâmicos) fossem expulsos do país. Tudo isso por causa do assassinato de um cineasta por um fundamentalista islâmico, que já provocou uma onda de violência cujas consequências ainda é cedo para avaliar. E porque a Europa continua a ignorar o fundamentalismo islâmico no seu território, apesar de os fundamentalistas não se inibirem de dizer que, se pudessem, trocariam a lei dos países onde vivem pela lei islâmica, obviamente de forma violenta. Como julgo ser claro, os resultados da sondagem demonstram que as pessoas têm medo, o mesmo medo que terá levado os americanos a preferir Bush em vez de Kerry — para usar o argumento mais comum dos que procuraram explicar a vitória do presidente Bush com o factor medo e que é, em parte, verdade. Evidentemente que não é agradável viver num clima de medo, e menos ainda quando se sabe que o medo pode levar a que se cometam abusos. Mas não basta dizer que não há razões para se ter medo para deixar de o ter. Bem pelo contrário: é preciso que se faça alguma coisa, e que se apresentem resultados. É bom não esquecer que, além de outras razões, o 11 de Setembro resultou do desleixo, e que os americanos acordaram para o pesadelo islâmico ao cabo de três mil mortos — tal como, agora, os holandeses acordaram para o pesadelo islâmico após a morte de Theo van Gogh e a violência que daí resultou. Por outras palavras, seria bom que isto servisse de lição aos que estão convencidos de que o fundamentalismo islâmico se resume a casos isolados, como se o fundamentalismo islâmico já não tivesse dado mostras de que não se limita a casos isolados e que é demasiado perigoso para que fiquemos de braços cruzados. Contrariamente ao que dizem alguns iluminados, não foi o presidente Bush que convenceu os americanos a ter medo. O que convenceu os americanos a ter medo foram os factos. Tal como, agora, os holandeses. [Originalmente publicado em 14-11-2004]
PEIXEIRADAS. Um golo que terá sido golo mas não foi assinalado, a que se juntaram dois penáltis que terão ficado por marcar, deixaram os dirigentes do Benfica à beira de um ataque de nervos, a ponto de pedirem que os árbitros sejam «responsabilizados civil e criminalmente pelos seus actos» e de recorrerem a ataques pessoais. Em causa está uma derrota que poderia não ter sido caso o tal golo fosse validado e os penáltis assinalados, e os dirigentes benfiquistas não acreditam que foi por acaso. Acresce que a «guerra» intestina entre Porto e Benfica já vinha de trás, com trocas diárias de acusações entre os dirigentes dos dois clubes até à hora do jogo. Jogo que, se bem se lembram, esteve a um passo de não se realizar, e ainda hoje me espanto como não acabou em tragédia. Escusado será dizer que o comportamento dos dirigentes do clube nortenho não teria sido diferente caso a situação fosse inversa, e francamente não vejo outros clubes comportarem-se doutro modo. Tirando excepções (que não conheço), os dirigentes da bola são mesmo assim: broncos, sempre prontos para mais uma peixeirada e atear o fogo quando deviam ser os primeiros a evitá-lo. Nada a opor se daí não pudessem resultar prejuízos para terceiros. Como aquilo podia ter acabado mal, passa a ser um assunto que diz respeito a todos nós, adeptos da bola ou não. Assim sendo, causa repulsa o silêncio que, uma semana depois, se abateu sobre o caso, ficando a ideia de que foi varrido para debaixo do tapete. E não basta que a Liga dos Clubes venha, agora, dizer que vai instaurar um processo a não sei quem, pois daí não resultará coisa que se veja. Pior: o caso nem sequer vai servir de lição. Para não variar, vão ser precisos mortos ou feridos para que se mude alguma coisa. [Originalmente publicado em 28-10-2004]
MARCELO. Ainda não são conhecidos os motivos que levaram o prof. Marcelo a abandonar os comentários políticos na TVI, e provavelmente nunca serão. Até ver, tudo o que se tem dito sobre o caso é pura especulação. Pura especulação e aproveitamento descarado, nomeadamente por parte da classe política, que se finge indignada quanto suspira de alívio por se ver livre de Marcelo. Contrariamente ao que julgo ser a maioria, não vejo porque razão o Governo não haveria de protestar caso entenda haver razão para protestar. Se o Governo se sente lesado com o que diz serem «mentiras» e «falsidades», o mínimo que se pode dizer é que lhe assiste o direito de protestar. Digo protestar porque, até ver, é de protestos que se trata. Houve pressões do Governo junto da TVI? Se houve, de que natureza e com que alcance? Ninguém sabe responder. E porque haveria a TVI de ceder a pressões do Governo? Também ninguém sabe responder. Mas admitamos que houve pressões. É grave? Com certeza que é grave, mas quem se lembra de um Governo que não tenha sido acusado de pressionar este ou aquele? Eu sei que não custa nada criticar o Governo e falar em delito de opinião, mesmo que disso se trate no caso em apreço. É o caminho mais fácil, além de politicamente correcto. Mas eu não estou seguro de que as «represálias» às diatribes do prof. Marcelo tenham partido do Governo, como toda a gente diz por aí, e também não sou adepto das teorias da conspiração. Até ver, os únicos factos que se conhecem são os protestos de um ministro — que notoriamente se excedeu e demonstraram falta de chá — e os silêncios de Marcelo e da TVI, que dão azo a especulações muito convenientes para uma das partes e a que cada um interprete o episódio da forma que mais lhe convém. Tudo o mais é foguetório, gritaria e suposições. Até porque é por demais evidente que se o Governo quisesse pressionar a TVI não o faria publicamente, muito menos de forma atabalhoada. Evidentemente que o Governo, culpado ou inocente, saiu mal desta estória, e pela forma como se comportou não merecia outra coisa. Já no que toca ao prof. Marcelo, ainda é cedo para o canonizar. [Originalmente publicado em 10-10-2004]
SEM PERDÃO. Segundo Pedro Mexia, Miguel Sousa Tavares é o cronista mais lido da nossa imprensa. Não conheço os factos em que Mexia se baseou para dizer o que disse, mas não me custa acreditar que assim seja. Miguel Sousa Tavares é uma figura que toda a gente conhece da televisão. É conhecido pela frontalidade, e pela coragem em dizer o que muita gente não é capaz. Tudo isto faz dele uma figura popular, acabando a popularidade por traduzir-se em leitores e/ou espectadores. São as leis do mercado, e nada a opor. Mais: certamente que a popularidade de que ele goza se deve, em parte, a mérito próprio. Mas, se me dão licença, eu tenho algumas reservas. Miguel Sousa Tavares já deu mostras de que é pouco rigoroso com os factos, e não foi só uma ou duas vezes que o demonstrou. Pior: é frequente fazer passar a sua opinião como de factos se tratasse, e não hesita em os manipular de molde a servirem o que pensa. Quem seguir com atenção os assuntos por ele abordados nos comentários televisivos ou na imprensa, facilmente descobrirá do que falo. E para isso, caros amigos, não há desculpa. Factos são factos, opiniões são opiniões. Misturar as duas coisas e servi-las como se de factos se tratasse, é pura aldrabice. E quem é apanhado a aldrabar uma vez e não se emenda, não merece perdão. Nem perdão, nem credibilidade. [Originalmente publicado em 24-9-2004]
A TRISTE REALIDADE. Tirando os directamente envolvidos (russos e chechenos), ninguém sabe ao certo o que opõe uns a outros. Por junto, sabe-se apenas que um comando checheno tomou como reféns centenas de pessoas num teatro de Moscovo, há coisa de dois anos, e que a operação para os libertar terminou com mais de uma centena de mortos. E, agora, que um comando checheno fechou centenas de pessoas numa escola, entre elas inúmeras crianças, e que o plano para as libertar causou ainda mais mortos (três centenas e tal, até ver). Se houvesse uma conclusão a tirar, a conclusão só podia ser esta: a grande maioria das pessoas tomou conhecimento da causa chechena pelas piores razões, o que não ajuda quem pretende chamar a atenção e ganhar simpatia para a causa. Pior: se alguma razão assiste a esta gente — e certamente que alguma razão assistirá —, os últimos acontecimentos vieram retirar-lha. Como compreender que metade dos reféns fosse crianças? Como compreender os maus-tratos a que essas crianças foram sujeitas durante o cativeiro? De facto, não se percebe. Já o desfecho do caso parece mais claro: as autoridades russas não estão preparadas para lidar com casos destes. Por pura incompetência ou nula preocupação com a vida humana, o plano montado para libertar os reféns (se é que houve um plano) revelou-se um desastre. Como compreender a presença de populares no local, ainda por cima armados, que terão precipitado o assalto final e a consequente tragédia? Como compreender que não tenha sido montada uma infra-estrutura (médicos, ambulâncias, psicólogos) de apoio às vítimas? Está visto que, por aqueles lados, a vida humana tem pouca importância. Nem para quem ataca, nem para quem se defende. É a triste realidade, mas é assim. [Originalmente publicado em 9-9-2004]
FAHRENHEIT 9/11. Não tenciono ver o sucesso do ano em Havana, muito menos confrontar as teses de Michael Moore com a verdade dos factos. O que já li sobre o dito chegou e sobrou para ver que aquilo não passa de um embuste miserável com a finalidade de convencer os incautos — ou quem já está convencido. Certamente que há razões para questionar a administração Bush face ao 11 de Setembro, e há erros que são por demais evidentes. Mas chegar ao ponto que chegou o sr. Moore, só mesmo de uma mente doentia. Reparem que o cavalheiro nem sequer tem coragem para assumir frontalmente o que pensa, pois insiste em dizer que Fahrenheit 9/11 é uma «comédia» sempre que alguém lhe aponta os factos que desmentem as suas teses. Nada de especial importância caso o filme fosse visto como uma «comédia», mas já não se pode dizer o mesmo quando pretende passar por documentário — onde se presume que é revelada a verdade dos factos. «Factos» que muitos acreditam ser verdadeiros, ou sabem não ser mas não hesitam em usá-los como se fossem. E usá-los contra quem dizem estar a mentir, é bom não esquecer. O que me leva a perguntar: quem será o maior mentiroso? Quem é acusado de mentir, ou quem acusa faltando à verdade? [Originalmente publicado em 12-8-2004]
RESSENTIMENTO. Qualquer pessoa medianamente informada saberá que não se pode considerar anti-americano quem foi contra a intervenção americana no Iraque, ou por discordar da política do presidente Bush para o Iraque (e não só para o Iraque). Mas qualquer pessoa medianamente informada saberá, também, que não falta quem tenha sido contra a guerra no Iraque ou contra Bush pela simples razão de que ser contra a guerra ou contra Bush é ser contra a América, porque a América é a origem de todos os males. Ora, se os primeiros não se podem considerar anti-americanos, os segundos são-no claramente. Anti-americanos ou anti-americanos primários, para o caso de haver diferença e de uma coisa não implicar a outra. É claro que esta gente não gosta que lhe chame aquilo que é, pois alegam não ser contra a América mas contra Bush — como se já nos tivéssemos esquecido de que ontem foram contra Clinton, Bush-pai ou Reagan, e só para falar de políticos. Já quanto a «seguidistas» e «papagaios da administração Bush», que estes senhores tanto gostam de chamar a quem esteve com a administração americana na questão do Iraque, são argumentos tão toscos que chegam a ser confrangedores. Não será necessário estar informado por aí além para saber que o problema desta gente é outro. Como bem diagnosticou Vasco Pulido Valente, o problema desta gente é a América ser «rica, forte e livre», e «coisas destas não se desculpam». E não se desculpam porque o sucesso dos americanos (e não só dos americanos) deixa à vista os nossos fracassos, nomeadamente o fracasso de um certo modelo de sociedade que tanta gente acreditou ser o paraíso na terra e se desmoronou de um dia para o outro. E desmoronou-se de um dia para o outro com a ajuda da América, é bom lembrar, o que ajuda a explicar o problema desta gente. A questão é, portanto, puro ressentimento, além de não terem um modelo de sociedade alternativo em que realmente acreditem. Nada que qualquer psicólogo de vão de escada não seja capaz de explicar. [Originalmente publicado em 30-7-2004]
AS REGRAS DO JOGO. O dr. Ferro Rodrigues não se conforma com a «derrota pessoal» imposta pelo Presidente da República, apesar da «amizade» que os une. Ana Gomes está «profundamente arrependida» de ter apoiado Jorge Sampaio nas duas vezes que este se candidatou à Presidência da República, porque o PR teve «falta de coragem» para seguir outro rumo. Carlos Carvalhas prevê um cenário de «instabilidade social e colapso» a curto prazo, para o qual se presume que irá contribuir com tudo o que puder. Francisco Louçã também não surpreendeu: o PR «fracassou» e o governo não tem representatividade. Fora dos dirigentes partidários, Boaventura Sousa Santos disse que o dr. Sampaio fez um «discurso patético e incoerente», além de ter cometido uma «traição ao 25 de Abril». Tudo isto porque o Presidente Sampaio resolveu convidar o PSD a formar um novo governo após a saída de Durão Barroso, quando a esquerda já se preparava para eleições antecipadas. E já se preparava porquê? Muito simplesmente porque Sampaio é um homem de esquerda; porque qualquer outra decisão seria «ilegítima» e «anti-democrática»; e porque convidar os social-democratas a formar um novo governo contraria a vontade popular. Ora, acontece que só a premissa da cor política é verdadeira. Jorge Sampaio é, realmente, um homem de esquerda, mas a ideia de que o PR deveria ter decidido com base nesse pressuposto e não em função do interesse nacional é tão irresponsável que custa a crer que alguém a tenha defendido. Quanto ao resto, é evidente que não existe falta de legitimidade, que não viola as regras democráticas ou contraria o voto popular, como foi amplamente explicado com abundância de pormenores. Já o contrário — dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições antecipadas — deixaria dúvidas quanto à legitimidade e quanto à vontade popular, além de ser necessária alguma boa-vontade para se poder considerar uma solução constitucionalmente fundamentada. É certo que ficou a ideia de que Santana Lopes (e o PSD) ganhou o jogo na secretaria, o que é verdade e não se recomenda. Mas o contrário seria subverter as regras do jogo, o que diz a Constituição, as regras da democracia. Como, aliás, chegou a haver quem defendesse, nomeadamente os que sempre aparecem a dizer que a democracia está em perigo quando os resultados não lhe convêm. [Originalmente publicado em 14-7-2004]
BANDEIRAS. Vocês não imaginam o que eu me tenho divertido com as reacções dos que não se conformam com a «epidemia de bandeiras» portuguesas, como alguém já lhe chamou. E digo divertido porque ainda não vi quem fosse capaz de explicar que mal tem isso, e até me parece que são precisamente estes cavalheiros que se fazem passar por espanhóis ou italianos logo que se apanham fora de portas. A onda de «patriotismo moderno» faz esquecer os males que nos apoquentam? Pois ainda bem que assim é, que isso só nos faz bem e não tem contra-indicações. Pelo menos as contra-indicações que os senhores dizem ter, embora não digam quais nem expliquem porquê. Qualquer patego sabe que a euforia da bola não vai durar sempre, mesmo imaginando o cenário mais prolongado. Logo regressarão os males que nos afligem, a mesmíssima pasmaceira, a falta de auto-estima. De maneira que não se percebe o que consome estes cavalheiros, que parecem incomodar-se por ver toda a gente feliz e a dar largas ao patriotismo — mesmo que a felicidade lhes pareça um exagero e o patriotismo roce o patético. Eu sei que é fino não gostar de futebol, não perceber nada de futebol. Porque o futebol é um desporto de massas, e contam-se pelos dedos as elites que se interessam por futebol. Além de que a bola desvia a atenção de coisas bem mais importantes, nomeadamente as coisas que os cavalheiros consideram mais importante mas que os portugueses, com futebol ou sem ele, teimam em ignorar. Mas o futebol não é só alienação ou instrumento usado por ditaduras (e por democracias, já agora) para amansar o povo. O futebol é, também, motivo de alegria e de festa. Como está a sê-lo para os portugueses no momento presente, e só não percebe isto quem não quer. Ou, então, quem julga que o povo só deve entusiasmar-se com o que os cavalheiros muito bem entendem, e ainda bem que o gosto não se institui por decreto. Mas eu suspeito que o inconformismo não passa de foguetório, pois estou convencido de que esta gente vibra com a selecção — e, até, com as bandeiras. Só que o fazem a recato, longe de olhares curiosos, como os maridos que compram a Maria para as esposas e acabam a ler à socapa. E, nesse caso, o problema é outro. [Originalmente publicado em 29-6-2004]
CASA PIA. Já toda a gente aplaudiu a decisão da juíza Ana Teixeira e criticou a decisão do juiz Rui Teixeira, alegando que a primeira agiu certo e o segundo errou. Ora, eu tenho dúvidas. E quando digo dúvidas, quero dizer isso mesmo: dúvidas. Tenho dúvidas que o juiz Rui Teixeira tenha agido mal no processo Casa Pia, porque tenho dificuldade em acreditar que o juiz Rui Teixeira tenha mandado prender inocentes. Mais: tenho dúvidas que o juiz Rui Teixeira tenha mandado prender quem sabia que lhe iria causar problemas sem ter a certeza absoluta do que estava a fazer. Mas longe de mim sugerir que Ana Teixeira não tenha agido dentro da lei, mesmo contradizendo decisões cruciais do seu colega. Tenho dúvidas, e só dúvidas. Contrariamente às «certezas» que toda a gente diz ter sobre o caso, geralmente com base em meros desejos e nenhuns argumentos. E mantenho a suspeita de que ainda vamos ver as vítimas — pelo menos parte das vítimas — transformadas em culpados, pois é provável que haja quem venha a ser incomodado por ter acusado este ou aquele e não tenha meios para se defender. É uma mera suposição, mas quem atacou um juiz e defendeu outro também não foi além disso. [Originalmente publicado em 13-6-2004]
SADDAM. Não será preciso ser perito em guerra — ou ter andado nela — para perceber uma coisa elementar: as circunstâncias em que Saddam Hussein foi capturado pelas tropas da coligação podiam muito bem ter resultado na morte do ditador, pois ele era um homem perigoso e encontrava-se armado. Os captores podiam muito bem tê-lo matado e alegar que o ditador resistiu à prisão — ou justificar a morte do ditador como um mero acidente. Se assim fosse, dois dias de discussão sobre as circunstâncias que rodearam a operação militar e assunto arrumado. Mas nada disto aconteceu. Saddam Hussein foi preso e, agora, vai ser julgado. Perante isto, no dia seguinte à captura choveram vozes a dizer que a prisão de Saddam foi «humilhante» e «desumana». Agora, que uma resma de advogados se prepara para o defender, alega-se que e que. Ora, tendo em conta que Saddam Hussein foi um ditador particularmente repugnante, não deixa de ser comovente assistir a tanta «preocupação». Hipocrisia pura e simples? De maneira nenhuma. Defender o homem que não hesitou em eliminar milhares dos seus concidadãos é uma forma de ser contra a América, e contra a América vale tudo: hoje é o terrorismo, ontem foi o comunismo, amanhã sabe-se lá o que será. De facto, esta gente tem-se esmerado em fazer passar a ideia — e, até ver, com um sucesso notável — de que é mais perigosa a América que o fundamentalismo islâmico. Pior: esta gente está convencida de que a América e Israel são os responsáveis pelo fundamentalismo islâmico, como se o fundamentalismo islâmico já não tivesse dito e repetido, de forma clara e inequívoca, qual é o inimigo do Islão. Escusado será dizer que o «equívoco» vai sair caro. Aliás, já está a sair caro. Chamem-me papagaio da administração Bush, seguidista, o que quiserem, que não será por isso que as coisas deixam de ser o que são. Infelizmente. [Originalmente publicado em 24-5-2004]
O SISTEMA. A história do «Apito Dourado» e da corrupção no futebol — ou da suposta corrupção no futebol, para ser mais rigoroso — não espantou ninguém. Como não espantará ninguém caso a justiça decida prender mais uns quantos, conhecidos ou não, e a Judiciária até já avisou que a coisa não vai ficar por aqui. Mas já espanta que as autoridades tenham actuado com base em escutas telefónicas, que terão registado conversas comprometedoras entre os suspeitos efectuadas com o maior dos à-vontades. É que, tendo em conta o que se vem insinuando — sacos azuis, promiscuidade entre política e futebol, financiamento ilegal dos partidos, tráfico de influências, corrupção pura e simples —, não deixa de ser espantoso que esta gente não tivesse suspeitado de que pudesse estar sob escuta. Será que estavam convencidos de que ninguém lhes tocava? Provavelmente. Já bem mais clara é a conclusão de um estudo divulgado recentemente, ao dizer que a situação financeira dos principais clubes da bola é «preocupante». E preocupante porquê? Preocupante porque os clubes apresentam despesas largamente superiores às receitas, além de que a assistência aos jogos é cada vez menor. Quer dizer, preocupante é uma maneira de dizer, pois há anos que andamos a ouvir a cantiga sem que alguém se tenha preocupado ou os clubes tenham deixado de gastar o que não têm. E continuam a gastar o que não têm por uma razão simples: quando as coisas correrem para o torto, lá estarão os fanáticos do costume dispostos a desencantar mais umas massas. Depois, sempre se arranjará um expediente para que o poder (o governo, as autarquias) entre com mais uns cobres — ou com «facilidades» que rendam mais uns cobres, o que vai dar ao mesmo. Para o ano haverá mais estudos, igualmente «preocupantes», a que ninguém ligará. Afinal, esta estória de os clubes viverem acima das possibilidades já tem barbas, e já se percebeu que não morrerá de velha. A não ser que as autoridades resolvam prender todos os suspeitos de beneficiar com o «sistema», mas nisso eu não acredito. E não acredito por uma razão: isso paralisaria o país. [Originalmente publicado em 7-5-2004]
EUROPEIAS. Uma sondagem do Correio da Manhã revelou que 70 por cento dos portugueses se está nas tintas para as eleições europeias. Isto é, 70 por cento dos portugueses não tenciona votar nas próximas eleições europeias, o que significa uma subida de nove por cento em relação a 1999. Como seria de esperar, a revelação desta sondagem deu lugar a um coro de preocupações. O Presidente da República veio logo dizer que ficou «aterrado». Vital Moreira não tem dúvidas de que é preciso «analisar as razões para esta verdadeira alienação dos cidadãos». E houve mais preocupações, muitíssimas mais, mas já não me lembro de quem e o que disseram. Ora, admitindo que são genuínas, o mínimo que se pode dizer é que já ouvimos estas preocupações um cento de vezes sem que nada tenha mudado. Bem pelo contrário. Mesmo depois de conhecida esta sondagem, os políticos continuam a fazer tudo para que aconteça exactamente o contrário. As presidenciais de 2006, onde os candidatos a candidatos tudo fazem para aparecer, são um bom exemplo. No espaço de uma semana, Cavaco Silva apresentou não sei que volume da sua Autobiografia Política e Santana Lopes foi recebido pelo Papa. Tudo isto numa altura em que as eleições europeias — precisamente as eleições em que os portugueses estão pouco interessados em votar — deviam dominar as atenções. Para ajudar à festa, o socialista José Sócrates lembrou que as eleições europeias serão «uma boa oportunidade» para fazer um juízo político sobre os dois anos de governo de Durão Barroso. Outro socialista, António José Seguro, disse que vai pedir «um cartão amarelo» ao Governo, e já avisou que pretende fazer das europeias um «trampolim» para outros voos. Francisco Assis, candidato socialista ao Parlamento Europeu, sonha candidatar-se a uma autarquia — e já avisou que, caso vença, abandonará o cargo em Bruxelas. Nos comunistas, a cabeça de lista às europeias não tem dúvidas de que as eleições de 13 de Junho devem ser encaradas como uma oportunidade para dizer não às políticas do executivo. Como se vê, as europeias não têm qualquer importância — excepto se forem um «cartão amarelo» ao governo ou um compasso de espera para outros voos. E, depois, ficam aterrados quando vêem sondagens como a do Correio da Manhã, como se não fosse evidente que comportamentos desses só poderiam acabar em resultados desses. Há outras razões que afastam os portugueses das eleições para o Parlamento Europeu? Sem dúvida que há. Mas, com razões como estas, nem são precisas mais. [Originalmente publicado em 21-4-2004]
O CIRCO. A RTP mudou não sei para onde e fez um escarcéu que só visto. Ainda por cima um escarcéu disfarçado de informação, como não saltasse à vista que aquilo era um programa de variedades sem música pimba (pelo menos eu não vi música pimba). E houve suspense e tudo, por alma de um segredo muitíssimo bem guardado e não menos publicitado. E qual era o segredo? Bom, eu não vi tudo mas presumo que o segredo era um estúdio de televisão com uma porrada de metros quadrados e mais não sei quê que o tornava num dos maiores da Europa (ou seria do Mundo?). Por mera coincidência, vi parte do programa numa altura em que tentava retomar a leitura de Dinossauro Excelentíssimo, um belíssimo conto de Cardoso Pires que faz uma caricatura do dr. Salazar. Mas o cardeal Policarpo e a água benta insistiam em misturar-se com o conto (e que bem que se misturavam), de maneira que eu cheguei a um ponto que já não distinguia o que era realidade e o que era ficção. Não que o circo montado pela televisão não estivesse bem, pelo menos a parte que eu vi. O meu problema é que aquilo não tinha sido anunciado como tal e eu contava com uma coisa mais ou menos sóbria, mais ou menos discreta, mais ou menos informativa. Não estava a contar com jornalistas disfarçados de entertainers a engonhar para manter a pantalha no ar durante horas a fio. Além de que tudo aquilo me pareceu uma manifestação de novo-riquismo verdadeiramente terceiro-mundista. [Originalmente publicado em 6-4-2004]
O TERRORISMO. A 11 de Setembro de 2001, a Al-Qaeda atacou a América — porque a América estava mesmo a pedi-las. Depois foi a vez da Tunísia, do Paquistão, das Filipinas, do Iémen, da Indonésia, do Quénia, da Arábia Saudita, de Marrocos, outra vez da Indonésia, outra vez da Arábia Saudita e da Turquia. Tirando o Iraque, onde os ataques da Al-Qaeda já se tornaram rotina, temos, agora, a Espanha — porque a Espanha apoiou a intervenção no Iraque ou porque há contas a ajustar com a Espanha. Perante isto, nomeadamente os atentados de Madrid, os líderes europeus descobriram que a Europa tem um problema com o terrorismo — e ameaçam tomar medidas. E que medidas ameaçam tomar? Tirando os países que têm vindo a apoiar a actual luta ao terrorismo, estou para ouvir o primeiro líder europeu anunciar uma medida concreta. Até agora, a única coisa que os cavalheiros fizeram foi dizer o que não se deve fazer: não se deve usar a força — porque a força nada resolve; não se pode esmagar o terrorismo — porque não se chega a lado nenhum; não se pode retaliar — porque retaliar é entrar no jogo deles. E assim por diante. Como se o terrorismo se combatesse pregando o que não se deve fazer. Quanto à defesa da Europa, tirando o óbvio não sabem o que fazer — muito menos como combater o terrorismo. Estarão a pensar na tese do dr. Soares, que se deve negociar com os terroristas? Não me surpreenderia. E tudo isto porque, até ao 11 de Março, os ilustres senhores estavam convencidos de que o terrorismo islâmico era coisa dos outros, nomeadamente dos americanos, e eles que se virassem. Como se vê, a irresponsabilidade não tem limites. Como, aliás, demonstra bem a principal medida contra o terrorismo tomada na última reunião de não sei que ministros da UE: pedir que lhes seja apresentada uma proposta para a criação de uma tal «instância operacional» que tem por objectivo recolher e fazer circular informações entre os países da UE. Vejam bem: uma mera proposta. Que lhes deverá ser apresentada... daqui a seis meses. [Originalmente publicado em 22-3-2004]
FERREIRA TORRES. O presidente Sampaio quer a intervenção das autoridades para evitar incidentes semelhantes ao protagonizado por Ferreira Torres. O primeiro-ministro quer maior «contenção e elegância» dos intervenientes no futebol. O PS quer saber se a GNR deu voz de prisão a Ferreira Torres, porque «o comportamento do presidente da Câmara do Marco não pode ser branqueado por alguns responsáveis políticos e desportivos». O líder parlamentar do PP classificou de «infeliz e inaceitável» o comportamento do autarca e Pacheco Pereira perguntou: «Porque é que um arruaceiro e um hooligan que faz as coisas que Ferreira Torres (...) não foi imediatamente preso pelos guardas que o agarraram?» O senhor Madaíl nunca imaginou que «situações destas pudessem acontecer no Portugal de 2004», e não tem dúvidas de que «a nenhum adepto seria permitido fazer o que ele fez». A Associação dos Árbitros quer um «rigoroso inquérito» e mais não sei o quê. Ora, eu também gostava que o sr. Avelino fosse punido por aquilo que fez, até porque a criatura ainda teve o desplante de andar por aí a vangloriar-se da proeza e ninguém duvida que um cidadão anónimo teria sido punido na hora. Acontece que o presidente da Câmara do Marco tem sido acusado de coisas mais graves, como lembrou a última edição do Expresso e não há jornal que o não tenha dito e repetido com abundância de pormenores sem que tenha havido desmentidos ou consequências. Ser punido por causa de um pontapé numa mesa ou de uns vagos insultos a um árbitro e permanecer impune por tudo o resto de que é acusado — e, sobretudo, por aquilo que não há coragem para o acusar — chega a ser obsceno. Sem dúvida que Ferreira Torres é inocente até prova em contrário. É a lei que o diz e eu não me atrevo a duvidar. Até porque dúvidas destas costumam sair caras. [Originalmente publicado em 5-3-2004]
TENHO DÚVIDAS. Não sei se o regime de Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça (ADM). Digo não sei porque não há factos que o comprovem — ou que demonstrem o contrário. Tinha dúvidas da sua existência antes da guerra, continuo a tê-las depois da guerra. Mas, se bem me lembro, havia uma resolução da ONU que obrigava o regime de Saddam a demonstrar que as tinha destruído. Ora, como isso não aconteceu, é razoável concluir que as tinha. Não é? É bom não esquecer que Saddam Hussein jogou ao gato e ao rato com os inspectores da ONU durante anos a fio, facto que agora se pretende esconder e que, por si só, justificava uma intervenção militar — precisamente uma intervenção militar à luz do direito internacional, como os «pacifistas» não se cansaram de exigir. O facto de não terem sido encontradas ADM não quer dizer que o ditador não as tinha, como se começou a dizer a seguir ao fim da guerra. Pode ser que assim seja, mas é uma mera suposição. Também não sei se foi mentira ou engano, como agora se diz. Para mim, a questão da intervenção militar no Iraque sempre esteve para além das ADM. Ou melhor, para além de o regime iraquiano as ter ou não ter, pois se as não tinha procurava adquiri-las e eu nunca duvidei que Saddam as usaria contra os americanos logo que lhe fosse possível. Assim sendo, seria um suicídio esperar que o regime iraquiano as utilizasse para assim se provar que as tinha. Mais: eu sempre achei que um dos erros da administração Bush na questão do Iraque foi agarrar-se em demasia às ADM, quando havia outras razões que justificavam uma intervenção militar. Depois, quem foi contra a guerra só disse disparates e demonstrou sê-lo pelo mais puro anti-americanismo. Ou, então, serviu-se do caso como um mero expediente para afirmar uma pretensa importância perante terceiros — como o caso do presidente Chirac mais a sua arrogância bacoca. Acusem-me do que quiserem que eu não me importo. As ADM não são tudo e os factos conhecidos são demasiado escassos. Contrariamente às mentiras e suposições sem pés nem cabeça, que proliferam como cogumelos desde a primeira hora. Não digo que não mudarei de opinião. E, se mudar, não será a primeira vez. Mas certamente que não será com preconceitos, suposições ou mentiras. [Originalmente publicado em 19-2-2004]
MOURINHO. Independentemente do que acontecer daqui para a frente, José Mourinho terá o seu nome ligado a uma época de ouro do FC Porto. Ele foi a conquista da Taça UEFA; ele foi o título da Superliga; ele foi a Taça de Portugal; ele só não foi a Taça Intercontinental porque não calhou. Mas nada disto o coloca a salvo de críticas, e não falo de críticas miúdas que resultam da dor de corno ou da clubite aguda. Não é novidade para ninguém que Mourinho é arrogante, fala como se tivesse o rei na barriga e não hesita em recorrer à canelada sempre que aí vir proveito — como o último Sporting-Porto veio, aliás, demonstrar. Tudo práticas que eu abomino e não me perturbariam por aí além caso Mourinho não falasse a toda a hora nas televisões, a propósito de tudo e de nada. Valha a verdade que não é só ele que fala demais. Tirando um ou outro, é toda a clique da bola que fala demais, e não só nas televisões. Não que eu seja contra a bola ou o desporto em geral — e até vivo disso. Mas pela simples razão de que passamos a vida a ouvir a mesmíssima coisa da boca dos mesmíssimos personagens durante anos a fio. Como não bastasse, raramente vão além do lugar-comum, do paleio de circunstância e do pontapé no enquadramento. Além das caneladas na gramática, em que alguns demonstram ser mais exímios que no pontapé na bola. Concordo que não haverá muito mais a dizer além do trivial. Mas, nesse caso, falem menos. Até porque, como diz o ditado, quem muito fala, pouco acerta. [Originalmente publicado em 3-2-2004]
O FADO. Confesso que sou um amante de música, mas não um amante de fado. Quaisquer dois ou três fados seguidos, mesmo os que dizem ser os melhores, chegam e sobram para as necessidades. Se for fado de Coimbra, ainda vá que não vá. Se for fado de Lisboa, um quase sempre é demais. Mas o que me custa mesmo a engolir são os que pensam que são precisos especiais conhecimentos (ou será um dom?) para se apreciar o fado, como se o fado exigisse especiais conhecimentos para ser apreciado. Ora, é preciso que se diga que o fado não é grande coisa em termos musicais. O fado não é só voz ou poema, como às vezes nos tentam fazer crer. Antes de mais, o fado é música — e como tal deve ser tratado, entendido, apreciado. Eu sei que um bom poema e uma boa voz fazem toda a diferença, mas nem por isso o fado deixa de ser pobre musicalmente — além de repetitivo, óbvio, previsível. A letra e a voz mudam, mas não muito. A música, nunca. Ouvem-se dois ou três fados e fica-se com a sensação de que se esteve a ouvir sempre a mesma música. Isto para já não falar dos maneirismos que rodeiam a interpretação, que os amantes do fado apreciam e eu embirro particularmente. Depois, os intérpretes também não ajudam. Porque será que os fadistas têm tanta relutância em assumir-se como tal? O que distingue um fadista de outro intérprete qualquer? Mistérios que me cheiram a pretensiosismo — ou mesmo a superioridade. Ora, a vida ensina-nos que os melhores são humildes, seja na música ou na vida. Naturalmente que há excepções, mas não é de excepções que reza a história. [Originalmente publicado em 19-1-2004]
DROGA. Miguel Sousa Tavares defende que o Estado deve fazer «uma espécie de nacionalização do tráfico de drogas duras» de modo a «concorrer com o mercado» na venda das ditas «a preço de custo e sem adulteração». Mas com condições: «que os compradores sejam portadores de documento emitido pelas autoridades que os reconheça dependentes; que a venda se faça sob vigilância médica e assistência psicológica e social em locais determinados para o efeito; e que, paralelamente, sejam agravadas as penas para o tráfico de droga clandestino». Ora, com o devido respeito, eu acho um perfeito disparate. Tal como Miguel Sousa Tavares, há anos que também eu defendo a legalização do consumo de drogas, mesmo o consumo das drogas duras. Mais: há anos que defendo que a droga deve ser livremente vendida como outro produto qualquer. Não por estar convencido de que é a melhor solução, mas porque me parece a menos má. A venda livre de droga tem enormes vantagens: passa a ser mais barata e de melhor qualidade, e paga impostos em vez de os consumir. Acaba, ainda, com o mito do fruto proibido, e com a violência associada ao tráfico e consumo. Além de que não me parece que deva ser o Estado a vender droga, mesmo a pretexto de um controlo de qualidade e de a vender a preço de custo. Tal medida mais não seria de que uma forma de o Estado substituir o traficante — além de incentivar o consumo do que condena. Quanto à repressão, está mais que provado que nenhuma forma de repressão impediu o tráfico de droga. Ir por aqui, é continuar a gastar rios de dinheiro e não resolver coisa alguma. Além de que os primeiros beneficiados com a repressão ao tráfico são, precisamente, os traficantes. [Originalmente publicado em 5-1-2004]
O BRASIL. Tirando os actores das novelas quando visitam Portugal, onde confessam ter parentela algures na província, os brasileiros têm um problema com os portugueses. Não me refiro aos brasileiros que integram o chamado «povão», onde o problema seria mais fácil de explicar, mas às elites que escrevem na imprensa. Contrariamente ao que acontece com os portugueses — que tantas vezes se referem às proezas dos brasileiros como se das suas se tratasse —, os brasileiros só falam dos portugueses... para dizer mal. Exemplos? Há inúmeros. E não é necessário recorrer às «piadas de português», algumas tão engraçadas como certeiras. Recordo-me que no Europeu de Futebol de 2000 — de que a elite dos cronistas brasileiros falou abundantemente e onde Portugal atingiu as meias-finais — raramente vi um comentário acerca da nossa selecção. Mais recentemente, quando o Real Madrid venceu a Taça Intercontinental, a imprensa brasileira justamente destacou o desempenho de Ronaldo, que marcou um golo decisivo. Depois acrescentou que Ronaldo joga ao lado de estrelas como Roberto Carlos, Zidane e Raul, e de Figo — também ele um dos homens do jogo — nem sinal. Mas não é só no futebol que os brasileiros têm um problema. Podia citar outros casos, variadíssimos outros. Espanta-me, por isso, ouvir o nosso ministro da Cultura dizer, durante uma recente viagem ao Brasil, que é necessário «acabar com a imagem estereotipada de Portugal que existe entre determinadas camadas da população brasileira», porque «o Portugal de hoje nada tem a ver com a imagem que muitas pessoas conheceram através dos imigrantes portugueses que rumaram ao Brasil no século XIX ou no princípio do século XX». Porque isto quer dizer que o nosso ministro não está a par do que se passa — ou finge não estar a par do que se passa —, porque não é verdade que a má imagem de Portugal no Brasil seja apenas no «povão», como julgo que ele pretendeu dizer quando se referiu a «determinadas camadas da população brasileira». A má imagem de Portugal está, também, nas elites, como qualquer leitor da imprensa brasileira saberá. E todos sabemos que o que pensa o «povão» não está dissociado do que pensam as elites. [Originalmente publicado em 9-12-2003]
HISTÓRIAS. A história de Jessica Lynch tem várias versões. Mesmo sem ter acompanhado em pormenor, conheço, pelo menos, três: a que foi contada pela tropa americana no calor da refrega; a que foi contada pelo Washington Post após exaustiva investigação; e, agora, a que foi contada em livro pela própria. Qual delas é a verdadeira? Provavelmente um pouco de todas elas; provavelmente nenhuma em especial. O facto de Jessica Lynch resolver contar em livro a sua própria versão não é, por si só, garante de que a história seja verdadeira. Além de outros factores, é bom ter presente que um livro do género é um grande negócio (recorde-se que Jessica embolsou um milhão de dólares de adiantamento), e é mais que provável que a primeira ideia da donzela tenha sido fazer dinheiro. Se o expediente nada tem de condenável, é bom não esquecer este pormenor. Devo dizer que a versão posta a correr pela tropa americana não me convence, como não convence ninguém. Mas convém não andar para aí a dizer que a versão que Jessica decidiu contar é a verdadeira história, até porque há partes que diz não se lembrar. Procurar desfazer-se do rótulo de «heroína de guerra» em que a terão querido tornar, pode não ser um gesto tão desinteressado assim. Afinal, nada garante que tudo isso não passe de uma mera jogada de «marketing» destinada a torná-la em anti-heroína — ou numa heroína ao contrário, o que vai dar ao mesmo e também rende os seus proveitos. É uma mera possibilidade, mas quem quer fazer juízos de valor — e há inúmeros candidatos a fazer juízos de valor — tem que contar com essa possibilidade. Se a história contada pela tropa americana é condenável e não convence ninguém, a versão de Jessica também não esclarece a totalidade dos factos e levanta algumas dúvidas. De modo que seria recomendável um pouco mais de prudência e menos juízos apressados, porque julgar a mentira com meias-verdades é meio caminho para outra mentira. [Originalmente publicado em 4-12-2003]
LER OU NÃO LER. Sempre que caio na asneira de comentar um livro com alguém que não tem hábitos de leitura, lá vem a desculpa de sempre: gostaria muito, mas não tenho tempo para ler. Porque toda a gente pretensamente culta acha que é importante ler, não ler só mesmo com uma boa desculpa. E uma boa desculpa será a falta de tempo. Ora, acontece que não é. Porque quem não lê por falta de tempo tem tempo para outras coisas — tempo para telenovelas, tempo para reality shows, tempo para saber quem dorme com quem. Resumindo: tempo para o que interessa. De modo que seria bom que esta gente não perdesse tempo com desculpas, ainda por cima desculpas tão mal-amanhadas, até porque ninguém precisa de pedir desculpa por não ler. Além de que desculpas do género só convencem quem, como eles, tem tempo para tudo menos para ler, e a ideia não é bem essa. Pior só quando se julgam cultos e tentam comportar-se como tal. Como não conseguem, acabam a exibir aquele ar de pseudo-eruditos. E não há nada pior que os pseudo-eruditos para me darem cabo dos nervos. Mil vezes prefiro quem está convencido de que ler é coisa de mulheres e faz mal à vista — o que até tem o seu quê de verdade. Mil vezes prefiro quem pensa que ler é coisa de gente esquisita ou mesmo anormal — o que nem é tão errado assim. É que estes têm o mérito de serem verdadeiros, enquanto os outros não são eles nem quem julgam ser. Muito menos por quem tentam passar. Como só enganam quem não pretendem enganar, os primeiros enganados são os próprios. Não digo que não tem a sua graça, mas já me cansei desta anedota. [Originalmente publicado em 19-11-2003]
O BENFICA. O Benfica foi a votos para escolher aquele que vai ser, nos próximos três anos, um dos homens mais influentes do país. Apesar do descalabro desportivo e financeiro que o clube atravessa, as últimas eleições demonstraram que a presidência do clube da Luz continua a ser um lugar apetecível e a levar alguns a fazer tudo — ou quase tudo — para a alcançar. Até as boas acções, como diria Eça. Luís Filipe Vieira, presidente do futebol profissional «encarnado» que fez fortuna no negócio dos pneus, prometeu apostar na formação, construir um centro de estágio, manter e reforçar o actual plantel e transformar o Benfica num dos maiores clubes do Mundo. Jaime Antunes, economista e empresário que se tem distinguido como um dos opositores sistemáticos às várias direcções do clube lisboeta e para quem Valentim Loureiro é «uma referência», prometeu uma gestão profissional e dinheiro para comprar jogadores, nomeadamente Caneira e dois brasileiros (Denilson e Carlos Alberto). Guerra Madaleno, advogado e empresário actualmente a contas com a justiça (é acusado de ser co-autor de nove crimes de burla qualificada e associação criminosa), prometeu investir 75 milhões de euros e reforçar a equipa de futebol com uma mão cheia de jogadores de renome internacional (Rui Costa e Rivaldo, entre outros), duplicar o número de associados e investir nas chamadas modalidades amadoras. Tirando a demagogia barata e a mais pura mentira, os candidatos prometeram toda a espécie de êxitos desportivos e financeiros. Em duas palavras, o paraíso. Com 90 e tal por cento dos votos — um resultado histórico —, Luís Filipe Vieira arrasou a concorrência. Curiosamente, o candidato que menos prometeu. Resta saber se ganhou o Benfica. [Originalmente publicado em 3-11-2003]
CULPADOS E INOCENTES. Depois de tudo o que tem sido dito e do que tem ficado por dizer, continuo sem saber se a Justiça errou ao decretar a prisão preventiva de Paulo Pedroso ou se errou ao decretar a sua liberdade. Tenho dúvidas, também, que a Justiça está a funcionar (bem), como agora se diz a propósito de tudo e de nada, pois isso significa que dantes não funcionava (bem) e eu não sei se era assim. Antes de mais, há uma coisa que não consigo entender: porque haveria um juiz de decretar a prisão preventiva de um cidadão que lhe vai causar grandes dissabores — além de «um terramoto político» —, a não ser por razões muito fortes? Porque haveria um juiz de, na dúvida, optar por medida tão drástica (a prisão preventiva) quando dispõe de outras mais leves? Evidentemente que eu não acredito que o dr. Paulo Pedroso tenha sido preso — ou continue arguido — sem razões muito fortes. Também não creio na tese da cabala — ou maquinação, como agora se diz —, que os socialistas se fartaram de repetir. Não, não faço parte dos que desejam que os mais fortes devam ser condenados só por serem mais fortes, embora entenda quem assim pensa e seria bom que a Justiça mostrasse que também castiga os mais fortes. O que eu espero é o que espera qualquer cidadão: que sejam condenados os culpados, sejam eles fortes ou não. O que eu espero — e desejo — é que a Justiça trate Paulo Pedroso do mesmo modo como trataria qualquer outro cidadão. Não sei se o procurador-geral da República tem agido bem em todo o processo, mas concordo quando ele diz que «o Estado de direito só será uma realidade neste país quando um político for tratado perante a justiça como um simples cidadão». E também quando ele chama a atenção para aquilo que considera um atentado ao Estado de direito, pois «sempre que neste país um político está a contas com a justiça há uma tendência para politizar a justiça». É bom que se diga que não há qualquer indício de que a acusação a Paulo Pedroso tenha razões políticas. Políticas têm sido as pressões de que a Justiça tem sido alvo, nomeadamente por parte dos órgãos mais altos do Estado, que deveriam ser os primeiros a não o fazer. E como custa a crer que a Justiça seja surda e cega às pressões dos mais altos representantes do Estado — como, de resto, os últimos desenvolvimentos dão a entender —, é de temer o pior. Sem dúvida que mais vale um criminoso à solta do que um inocente na cadeia. Mas falhar no caso da pedofilia seria trágico para as vítimas e o descrédito total na Justiça. Além de que abriria caminho para que as vítimas se transformem em culpados, como já há quem ameace fazê-lo. [Originalmente publicado em 17-10-2003]
ÁRBITROS. O presidente do Vitória de Guimarães resolveu disparar contra os árbitros. Porque os árbitros espoliaram o Vitória em quatro jogos seguidos, deixando por assinalar não sei quantos penalties e um golo limpo. E reclama uma intervenção do Governo, porque é preciso pôr cobro a esta vergonha. Se caso for, contratem-se árbitros espanhóis. O futebol português é assim: sempre que as coisas não correm bem — e o Vitória perdeu os cinco últimos jogos —, arranjam-se bodes expiatórios. E os bodes expiatórios são sempre os mesmos: os árbitros. Porque, como agora é moda dizer-se, os árbitros são o elo mais fraco, porque eles são quem menos ganha, porque as pressões dão resultado. É um cenário conhecido e que se repete todos os anos: hoje foi o Guimarães, ontem foi o Sporting, amanhã será o Benfica. Com certeza que nem todos os árbitros são competentes e sérios, embora toda a gente tende a julgá-los competentes e sérios se nos favorecem e o contrário se nos prejudicam. Além de que nos esquecemos com frequência de que os árbitros são obrigados a ajuizar em segundos situações complicadas que a clubite insiste em ver da maneira que lhe interessa, mesmo após as televisões terem demonstrado o contrário. Culpar sistematicamente os árbitros por aquilo que se passa de mau nos campos — quantas vezes um mero expediente destinado a desviar a atenção de problemas bem mais complicados —, não só é pouco sério como contribui para adensar o clima de suspeição generalizada de que o futebol português tarda em livrar-se. Além de que é bom não esquecer que esse clima tem pouco a ver com os árbitros, e quase tudo com os dirigentes de clubes e órgãos que mandam na bola. De modo que seria bom que estes senhores começassem por assumir as culpas que lhes cabem, e cabem-lhes mais culpas do que possa parecer. Até lá, o futebol português continuará a ser uma casa em que todos ralham e ninguém tem razão. [Originalmente publicado em 3-10-2003]
PRIMÁRIO. Tudo leva a crer que o famoso «Roteiro para a Paz», patrocinado pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Nações Unidas, foi um fracasso. E um fracasso porquê? Porque «os patrocinadores do dito roteiro, Washington à cabeça, não mostram vontade nem interesse em exercerem a necessária pressão política sobre (...) Israel», diz Vital Moreira na sua última crónica no Público. Reparem bem: não foram a União Europeia, a Rússia ou as Nações Unidas — ou todos eles juntos — que falharam: foram os Estados Unidos, e só os Estados Unidos. Ora, se isto não é anti-americanismo primário, então eu não sei o que é anti-americanismo primário. Aliás, o sr. Vital não se limitou a destilar o habitual anti-americanismo. O ilustre senhor aproveitou o conflito israelo-palestiniano para dar largas ao seu ódio contra os judeus, também ele a roçar o irracional, atribuindo todas as culpas a Israel e nenhuma aos palestinianos. O que o sr. Vital não disse é que tem havido cedências por parte de Israel e nenhuma da Autoridade Palestiniana, e que o abominável Sharon foi o primeiro chefe de um governo israelita a defender a criação de um estado palestiniano. O que o sr. Vital não disse é que a Autoridade Palestiniana nunca previu a existência do Estado de Israel na região. O que o sr. Vital não disse foi que o moderado Mahmud Abbas não se demitiu por causa de Israel ou dos Estados Unidos, mas por causa do sr. Arafat, que não hesitará em liquidar o sucessor do primeiro-ministro caso desobedeça às suas ordens. E quem esconde verdades que não lhe interessam não merece respeito. Muito menos o respeito de quem, discordando, reconhece o direito de quem pensa o contrário, mesmo que se trate de disparates grosseiros e mal-intencionados. Além de que, sobre a questão judaica, cansei-me de quem defende a «solução final» mas não tem coragem de assumir. [Originalmente publicado em 19-9-2003]
CHOVER NO MOLHADO. Miguel Sousa Tavares não se cansa de sacudir o rótulo de anti-americano. É um exercício que se compreende, embora tenha o seu quê de curioso. Para não variar, começa com a justificação do costume: não se pode confundir a política da administração Bush com a América. A seguir, lá vêm os argumentos também já conhecidos: «Bush é apenas um servidor dos profetas da extrema-direita americana, que acreditam que a América é o modelo universal e definitivo das virtudes políticas e morais a quem Deus cometeu o encargo de exportar a sua doutrina»; a América é «dirigida por um presidente notoriamente inculto e ignorante, incapaz de compreender ou de se interessar por qualquer coisa para além dos dogmas básicos de vida em que acredita qualquer camionista do "cowboy country"»; «saber que o Iraque não tem armas de destruição maciça e mentir deliberadamente sobre isso para justificar uma guerra de conquista não é apenas imoral, é perigoso». Enfim, nada que seja novo e que já não tenha dito e repetido, mas nem por isso a última crónica no “Público” merece passar sem reparo. Para começar, dizer-se de Bush-filho que é «um servidor dos profetas da extrema-direita americana» não passa de um gesto gratuito, e só faz aumentar a minha estima por George W. Bush — e eu nunca nutri especial simpatia por George W. Bush. Depois, essa estória de que Bush é «inculto» e «ignorante» faz-me sorrir. Além da arrogância intelectual que uma afirmação desta natureza não deixa de pressupor, é bom lembrar que também Reagan foi considerado «ignorante» e «senil», e nem por isso deixou de ser considerado um dos melhores presidentes americanos. Quanto às famosas armas de destruição maciça, também nada de novo: uma vez que o presidente americano sabia que não havia armas de destruição maciça, o argumento não passou de um mero expediente para «justificar uma guerra de conquista». E baseada em quê esta «evidência»? Invariavelmente nos argumentos do costume: suposições e coisa alguma. Miguel Sousa Tavares defende que seria interessante recuperar alguns textos anteriores à guerra e confrontá-los com a realidade dos factos. Ora, aqui está um ponto em que estamos de acordo. Sem dúvida alguma que seria interessante confrontar alguns textos anteriores à guerra — e não só anteriores à guerra — com a realidade dos factos. Que tal começar pelos textos de Miguel Sousa Tavares? [Originalmente publicado em 5-9-2003]
CRUZADAS. Depois de ter proibido o fumo em tudo o que é sítio e de ter transformado os fumadores numa espécie de criminosos, a cruzada americana contra o tabaco há-de levar à proibição de fumar nas ruas. Tudo porque o tabaco faz mal à saúde, e porque as seguradoras dizem gastar rios de dinheiro com doenças e mortes por causa do fumo. Há anos que esta cruzada passa pela proibição de publicitar os cigarros em tudo o que é lado, mas agora o cerco aperta-se mais. Tudo isto perante a passividade de toda a gente, especialmente dos fumadores, enquanto os pronto-a-comer continuam a publicitar os seus produtos por todo o lado e por todos os meios, sobretudo junto dos mais indefesos (as crianças), sem que alguém se incomode com isso. Mas se alguém se incomoda e decide agir, logo aparece quem se indigne com os processos às multinacionais do junk food, alegando que o expediente mais não tem por propósito que extorquir uns milhões. Ora, se é certo que isso não deixa de ser verdade, não é menos verdade que só com métodos destes se consegue chamar a atenção para o problema do junk food e da publicidade dirigida às crianças, porque a publicidade dos pronto-a-comer dirigida às crianças é infinitamente mais grave que qualquer campanha para promover o tabaco. E estou à vontade para dizer o que digo: sou ex-fumador, e toda a gente acusa os ex-fumadores de serem os piores inimigos do fumo. Além de ninguém me tirar a suspeita de que a indústria do pronto-a-comer tratará de se converter à comida saudável uma vez sujeita a pressão. [Originalmente publicado em 21-8-2003]
FOGO POSTO. Se bem me lembro, há anos que as autoridades nos garantem que foram reforçados os meios de combate aos incêndios, que jamais se repetirão as catástrofes dos últimos anos, que está tudo a postos para o que der e vier. Uma vez chegado o Verão, dois ou três dias chegam e sobram para se provar precisamente o contrário: milhares e milhares de hectares de floresta são consumidos pelo fogo num abrir e fechar de olhos perante a aparente impotência de tudo e de todos. Pior: apesar dos meios que garantem existir — e salta à vista que foram reforçados nos últimos anos —, os incêndios continuam a aumentar. Paradoxal? Nem por isso. Não é verdade que há demasiados interesses à volta dos incêndios? Das companhias de aeronaves às empresas especializadas no ramo, passando pelos madeireiros e pelos próprios bombeiros, há um sem número de gente que tem tudo a ganhar com os incêndios. Assim sendo, qual é a solução? A resposta é: não sei. O que eu sei é que isto valia uma profunda investigação. Pelo menos assim se tiravam a limpo as suspeitas que por aí correm à boca pequena, e a Judiciária já disse que 30 por cento dos incêndios tem origem criminosa. Em última instância, proteger-se-ia o bom-nome de quem está inocente, nomeadamente o bom-nome dos bombeiros, cuja credibilidade já viu melhores dias. Dir-me-ão que não será apenas por esta via que o problema se resolve, porque os factores que levam aos incêndios são de variadíssima ordem. Pois seja. Mas é urgente começar por algum lado. [Originalmente publicado em 6-8-2003]
SER OU NÃO SER. Gostam de música clássica — mas só ouvem música clássica quando vão a concertos onde é de bom-tom ir e onde passam o tempo a olhar para o relógio à espera que aquilo acabe. Gostam de ler, sobretudo best-sellers e autores premiados — mas os reality shows não lhes deixam tempo para ler. Gostam de se fotografar frente aos ex-líbris deste mundo — para que possam provar aos parolos como eles que estiveram lá. Gostam de conversas «eruditas» — mas sempre que lhes toca abrir a boca só dizem lugares-comuns. Gostam do politicamente correcto e do pensamento único — porque o politicamente correcto e o pensamento único não são fáceis de contrariar e eles fogem da discussão como o diabo da cruz. Gostam de desvalorizar quem faz coisas que não entendem ou não conseguem fazer — porque não admitem que haja alguém que saiba coisas que eles não sabem e que faça coisas que eles não sabem fazer. Gostam de ver os amigos alcançar o sucesso — mas tratam de os menorizar mal lhes viram as costas. Gostam de lançar a calúnia sobre quem tem sucesso — porque a mediocridade os impede de admitir que haja alguém com sucesso por mérito próprio. Gostam de se rodear de medíocres — porque assim se sentem menos medíocres. Gostam de toda a espécie de acontecimentos mundanos — onde compram e vendem sorrisos e frases de circunstância. Gostam dos jornais ou revistas de referência — mas só lêem os tablóides e a imprensa do coração. Está bom de ver que a vida é boa para esta gente. Afinal, estas são as chamadas pessoas normais (ou normalizadas, como queiram). Deve ser por isso, aliás, que eu sempre me senti anormal. Como diria Sérgio Godinho, pode alguém ser quem não é? Evidentemente que não pode. Mas já lá vai o tempo em que era melhor sê-lo do que parecê-lo. [Originalmente publicado em 24-7-2003]
TRABALHO POLÍTICO. Depois de ter ameaçado os senhores deputados com um «Código de Conduta» e ver os discursos sempre que estes se desloquem ao estrangeiro em representação da Assembleia da República, Mota Amaral voltou a ser um desmancha-prazeres. Desta vez porque não viu motivo que justifique as faltas de três dezenas de deputados que decidiram baldar-se aos trabalhos parlamentares para irem ver a bola. Como seria de esperar, choveram reacções de todo o lado mal foram conhecidas as intenções do presidente do Parlamento. Em jogo estava uma representação de Portugal ao mais alto nível, lembraram os deputados. Assim sendo, a ausência dos cavalheiros justificava-se plenamente com «trabalho político». E o que é «trabalho político»? Vasco Pulido Valente, contando a sua experiência como deputado, dizia que «trabalho político» era uma figura à sombra da qual se podia fazer quase tudo. Desde ir ao cinema a ficar em casa a dormir. O Diário de Notícias lembrou que nunca um deputado perdeu um mandato por exceder o número de faltas injustificadas (três) ou pagou multa (cerca de 170 euros cada), apesar de ter descoberto que dezena e meia de deputados atingiu (ou ultrapassou) as três faltas injustificadas em 2001. Quer isto dizer que nem foi necessário recorrer ao «trabalho político» para justificar o que, de outro modo, não seria justificável? Pelo menos é a ideia que fica. E como já não bastasse mais esta pouca-vergonha — que o presidente da AR diz ter prejudicado o prestígio da classe política —, já se anuncia uma outra: os deputados que habitualmente participam nas reuniões da Organização Mundial de Comércio foram substituídos por outros no próximo encontro, porque este se realiza... em Cancun. Um verdadeiro caso de «turismo parlamentar», terá dito ao DN um dos preteridos. João Vieira de Almeida dizia, ainda no DN, que «os deputados devem a si mesmos a péssima imagem que têm». Alguém tem dúvidas? [Originalmente publicado em 9-7-2003]
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