EQUÍVOCOS. Fátima Felgueiras decidiu dar uma conferência de imprensa e uma entrevista para explicar a versão dela dos factos. E qual é a versão dela dos factos? Para começar, acha que a querem «amordaçar e impedir» de se defender. Depois, não tem dúvidas de que é uma vítima do (mau) funcionamento da justiça, que pretende ver alterado. A seguir, que não fugiu à justiça, que o seu caso é «estritamente político» e se considera uma «exilada política», a primeira após o 25 de Abril. Que só tomou conhecimento de que tinha sido decretada a sua prisão preventiva já no Brasil — para onde foi com «bilhete de ida e volta» —, e que quer regressar a Portugal o mais depressa possível — onde pretende cumprir o seu mandato como presidente da câmara. Tudo isto servido à hora dos telejornais, e nem sequer faltou a voz embargada e o drama familiar para compor o papel que cuidadosamente entendeu representar. E que era, se bem se lembram, o de vítima. Ora convém lembrar que Fátima Felgueiras é suspeita de ter cometido três dezenas de crimes, entre os quais os crimes de corrupção, de desvio de dinheiro e de participação ilícita em negócio. Com certeza que enquanto a Justiça não demonstrar que é culpada, a senhora é inocente. É o que diz a lei e manda o bom senso. Só que mandaria igualmente o bom senso que a senhora Felgueiras tivesse um pingo de vergonha e assumisse, ao menos, parte da culpa, em vez de a jogar integralmente para terceiros. Decidindo apresentar-se como vítima sem a mais leve culpa, a senhora Felgueiras acabou por dar um tiro que lhe saiu pela culatra. Pior só o comportamento da televisão pública, que lhe deu uma eternidade em directo sem que se perceba porquê. Se aquilo é serviço público ou tem relevância informativa, então eu não percebo nada de jornalismo. Com certeza que o show de uma foragida à justiça garante audiências, mas essa é a lógica das televisões privadas. De modo que seria bom que os responsáveis da televisão pública não tentem, agora, passar de culpados a vítimas, porque não comovem ninguém e só convencem quem nem sequer duvidou. [Originalmente publicado em 24-6-2003]
O SUCESSO DOS OUTROS. Impressionante a quantidade de gente que não se conforma com o sucesso dos outros. Os outros, quando têm sucesso, invariavelmente o devem... aos outros. Se não fosse o apoio de A ou o padrinho B não teriam o sucesso que têm. Ou então devem-no a situações pouco claras ou nada dignificantes. Na melhor das hipóteses, tiveram sorte. Assim fica explicado que o sucesso dos outros nunca depende dos próprios mas... dos outros. Assim fica explicada a mediocridade de quem, com este expediente, procura menorizar o sucesso dos outros e, por arrasto, justificar o fracasso dos próprios. O sucesso dos outros sempre há-de incomodar os medíocres, quem passa a vida a desculpar-se com toda a espécie de obstáculos que os impede de ser mais profissionais, mais competentes, menos medíocres. E se for o nosso vizinho o protagonista desse sucesso? Muito pior! Tem sucesso, o nosso vizinho? Mas isso é imperdoável! E o nosso amigo, como foi ele foi capaz de nos fazer uma coisa dessas? E assim por diante. Se mais razões não houver para menorizar o sucesso dos outros, inventam-se. Se for preciso recorrer à calúnia, que se recorra à calúnia. O que importa é que o sucesso não fique impune. E nisso somos mesmo um sucesso. [Originalmente publicado em 9-6-2003]
O MEU CÃO. A esmagadora maioria das pessoas fala muito, diz pouco e pensa menos. Ouvir o que os outros têm para dizer é tarefa reservada a uns poucos. O que as pessoas querem é falar, falar e falar. Seja ele do futebol, do vizinho de cima, do que for. O que mais me espanta é como esta gente tem sempre tanto para dizer, quando eu me esforço para arranjar assunto sempre que tenho que abrir a boca. Isto para já não falar das certezas que sempre têm sobre tudo e dos veredictos que estão sempre prontos a lavrar, invariavelmente com base em dois ou três factos e quase nenhuns argumentos. É extraordinário como se tem opinião sobre tudo e se sentencia como quem fuma um cigarro. Já Eça de Queirós lamentava o hábito dos juízos ligeiros: «Com excepção de alguns filósofos escravizados pelo método, e de alguns devotos roídos pelo escrúpulo, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar.» E depois acrescentava: «Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada.» Infelizmente eu vivo rodeado de gente assim e não há nada a fazer. Deve ser por isso que eu cada vez gosto mais do meu cão. [Originalmente publicado em 24-5-2003]
O MANIFESTO. Depois de um manifesto contra a guerra do Iraque — que se distinguiu por uma pobreza e um facciosismo notáveis —, o mesmo grupo de personalidades resolveu subscrever mais um documento contra os americanos. Esta gente, que se tem distinguido por uma série de disparates (para não ir mais longe), vem agora dizer que a «formidável máquina de guerra» anglo-americana foi lançada contra o povo iraquiano e que a pilhagem do Museu de Bagdad mais não foi do que uma forma de «facilitar o controlo da sociedade e das elites iraquianas». Depois, que «a violência exercida contra jornalistas» e «a censura organizada» constituíram «elementos centrais da operação "choque e pavor", (...) de modo a minimizar a oposição dentro dos próprios Estados Unidos da América e da Grã-Bretanha e o repúdio generalizado da opinião pública mundial». Por último, que a tropa anglo-americana infligiu um «tratamento brutal e vexatório» aos prisioneiros de guerra e que o Iraque não é um país livre, como se viu nas «imponentes manifestações ocorridas em Bagdad» que a queda do regime de Saddam — esqueceram-se os senhores de dizer — tornou possível. Tudo isto para exigirem «a retirada das tropas invasoras» de modo a que a ONU possa enviar «uma comissão de observadores de reconhecida credibilidade internacional», e que eu não resisto comentar. E o comentário que se pode fazer é só um: além da evidência de que a retirada da tropa anglo-americana iria tornar aquilo num verdadeiro caos (ou será essa a ideia?), o documento assenta na interpretação abusiva dos factos e na mais pura mentira. Porque esta gente não se conforma com o facto de as coisas terem corrido melhor do que se esperava — e ao contrário do que previram e desejaram —, tudo serve para dar largas ao ódio contra os americanos. Curioso só o facto de, para o fazerem, terem necessidade de recorrer à manipulação e à mentira. Por que será? [Originalmente publicado em 8-5-2003]
MENTIRAS. Impressionante a quantidade de jornalistas que, sobre o Iraque, não conseguiu transmitir uma visão imparcial do que lá se passou. Foi vergonhoso assistir a toda a espécie de omissões, interpretações abusivas dos factos e à mais pura mentira. Foi chocante constatar até que ponto se confundem deliberadamente factos com meros desejos. Robert Fisk, por exemplo, insistia em não ver tropas americanas em Bagdade numa altura em que toda a gente sabia que elas lá se encontravam. Só podia ser propaganda, dizia ele na cegueira dos que se recusam a ver. Com certeza que a propaganda se presta a estes comportamentos, mas não me venham dizer que a propaganda impede de ser rigoroso quem quer ser rigoroso. Se é verdade que a propaganda é útil a quem pretende revelar apenas a «verdade» que lhe interessa, também não é menos verdade que ela não impede de ver quem quer mesmo ver. Dir-me-ão que a objectividade total é uma utopia e que um jornalista também tem sentimentos. Pois seja. Só que factos são factos; opiniões são opiniões. Há que distinguir claramente uma coisa e outra, custe lá isso o que custar. E não me venham com essa dos jornalistas «incorporados», por quem eu nunca nutri simpatia, porque desses conheciam-se as regras. A deliberada mistura de factos com mentiras e de omissões com opiniões é muito mais grave. Além de descredibilizar o jornalismo e os jornalistas, é uma manifesta vergonha. [Originalmente publicado em 23-4-2003]
AS VÍTIMAS. Numa altura em que se começou a insinuar que a estratégia militar anglo-americana para o Iraque não estava a alcançar os resultados previstos — pelo menos os resultados que a comunicação social avançou com base em não se sabe o quê —, algumas cabecinhas não esconderam a satisfação que lhes deu saber que, afinal, há resistência do lado iraquiano, e que os soldados americanos não foram recebidos com flores mas com balas. Esta gente está tão obcecada com aquilo que julga ser a verdade (estou a falar dos bem-intencionados, é claro) que até se esqueceu que, caso a guerra fosse rápida e a tropa encontrasse pouca ou nenhuma resistência, haveria menos vítimas. Miguel Sousa Tavares, por exemplo, não teve qualquer problema em dizer que o seu coração balança entre o desejo de «um desastre que puna merecidamente esta aventura [do Iraque] e fique como lição para o futuro» e «o milagre de uma guerra rápida e relativamente indolor». Está visto que, para esta gente, as vítimas da guerra (do lado iraquiano, é claro) servem, apenas, como arma de arremesso contra os americanos. Assim sendo, quanto mais vítimas houver, melhor. Não vítimas civis iraquianas feitas pelo próprio regime, que destas não querem eles saber. O que «preocupa» esta gente são as vítimas dos alegados mísseis americanos que terão caído no sítio errado, mesmo sabendo-se que há um enorme cuidado em não atingir alvos civis e que, do outro lado, se violam todas a regras. No afã de serem contra os americanos a qualquer preço (é curioso notar como nunca falam nos ingleses), esta gente não olha a meios. Até as vítimas inocentes, que choram pela frente mas aplaudem por trás, servem para esse fim. Com certeza que são respeitáveis os motivos com que alguns se opõem à guerra. Mas já não são respeitáveis a interpretação abusiva dos factos e a mais pura mentira. Muito menos a utilização de vítimas inocentes, que chega a ser obsceno. [Originalmente publicado em 8-4-2003]
OS MÉDICOS. Uma senhora de setenta e tal anos dirige-se a um Centro de Saúde para uma consulta marcada há semanas. Uma vez lá chegada, é informada que a médica decidiu fazer greve. Três semanas depois, a mesma senhora dirige-se ao mesmo Centro de Saúde para nova consulta e de novo é informada que a médica não está — nem vai estar — durante um mês. Algum congresso num país exótico a convite de uma multinacional? Tudo indica que sim. E outro médico para substituir a doutora, não há? Não havia, que a senhora diz que não há médico que a queira. E porquê? Porque os médicos alegam ter doentes a mais. Exactamente. Doentes a mais nos Centros de Saúde, que não consta que haja doentes a mais na medicina privada. A cena passou-se algumas semanas após a enésima greve dos médicos, desta vez por três dias e por causa da reestruturação dos Centros de Saúde. Evidentemente uma greve que pretendeu «defender os interesses dos utentes», como outras greves no passado pretenderam defender os interesses dos utentes. Aliás, há anos que os médicos fazem greves para defender os interesses dos utentes, não se percebendo por que é que os utentes continuam tão indefesos e mal servidos. Pior, muito pior, só o facto de não poderem reclamar e, muito menos, fazer greve. Muito pelo contrário. Há que ir para o médico com paninhos quentes; há que tentar convencer (às vezes subornar) a empregada para ver se ela dá um jeito de não ter que esperar tanto tempo pela consulta; há que não fazer ondas porque eles têm o faca e o queijo na mão. Simplista, o retrato? Só se pecar por defeito. [Originalmente publicado em 31-3-2003]
O PROFESSOR. J. M. Nobre-Correia resolveu descer do pedestal para nos vir dar uma lição de jornalismo. Numa prosa manhosa e por vezes incompreensível, o professor começou por dizer que «a história mostra suficientemente que os media norte-americanos há muito mais não são do que porta-vozes de círculos que só reconhecem como limites dos seus procedimentos os seus próprios interesses económicos e estratégicos». E depois que os media norte-americanos «adoptam uma postura de soldadinhos, o dedinho na costura das calças, em relação à megalomania guerreira do seu Presidente». Estas e outras pérolas a propósito das regras que o governo americano impôs aos jornalistas interessados em cobrir a guerra ao lado das suas tropas, que a mim me merecem reservas e ele discorda mas não explica porquê. Além de muito convenientemente omitir que só entra no «jogo» quem quer e de não ter escrito uma linha a condenar as reportagens que todos os dias nos chegam de Bagdad — cozinhadas com base em «material noticioso» muito convenientemente colocado à disposição dos jornalistas pelas autoridades iraquianas, como muito bem avisou Pacheco Pereira no Flashback —, assim demonstrando Nobre-Correia que não é a verdade que o preocupa mas apenas parte dela. Disse mais o professor no Público: que os EUA são «uma plutocracia em perda de identidade democrática». E com base em quê que ele disse isto? Evidentemente com base nos argumentos do costume: preconceitos e ignorância. Coitados dos alunos do senhor professor. [Originalmente publicado em 14-3-2003]
MEXER NA DITA. Clara Pinto Correia acha que a cópia quase integral de um texto publicado na New Yorker — e depois servido aos leitores como se de prosa sua se tratasse — não passou de um «"fait-divers" absolutamente trivial». Em entrevista ao Expresso, a ex-cronista da Visão voltou a justificar o «copianço» com uma explicação absolutamente estapafúrdia, como se o cansaço ou os problemas familiares explicassem o que se passou. E depois não se coibiu de chamar «abutres» a quem se atreveu a criticá-la. Porque há pessoas que gostariam que a sua vida «ficasse toda em cacos»; porque a comunicação social tentou «fazer um casaco a partir de um botão»; porque existe na comunicação social «a voragem de tentar demolir pessoas visíveis». Enfim, um autêntico «circo de feras» destinado a liquidá-la. Além de um manifesto exagero, é claro. Porque é preciso não esquecer que aquilo que se passou pode acontecer a qualquer um, diz ela, embora depois tenha garantido que jamais lhe volta a acontecer. Além disso, o «copianço» não tem a importância que se lhe deu, já que «não é um trabalho académico», «não é um artigo científico», «não é sequer um exercício de investigação jornalística». Ou seja, foi mesmo um fait-divers. E, porque assim foi, Clara acha que merece uma segunda oportunidade. Só que a entrevista ao Expresso, claramente uma segunda oportunidade para explicar melhor o que se passou, não ajudou mesmo nada a demonstrar essa tese. Muito pelo contrário. Acabou por ser um puro mexer na merda que, como seria de esperar, voltou a cheirar mal. [Originalmente publicado em 6-3-2003]
A GUERRA. A discussão à volta da política norte-americana para o Iraque está irremediavelmente dividida entre «antiamericanos» e «seguidistas». Não que muitos dos contendores não sejam «antiamericanos» ou «seguidistas», mas é bom lembrar que há quem não seja nem uma coisa, nem outra. Eu, por exemplo, não estou seguro que uma intervenção militar seja a melhor solução, mas já não tenho dúvidas que é necessário fazer alguma coisa. E o quê? Bom, ninguém sabe. Ou ninguém diz, o que vai dar ao mesmo. Sim, é preciso dar uma oportunidade à paz; há que esgotar todas as soluções; a guerra é uma coisa medonha. Só que, além de abstracções, ninguém diz qual é a alternativa. E não havendo alternativa fica à mostra uma evidência: além da guerra, não há solução. É a triste realidade mas é assim. Bem podem andar para aí descaradamente a mentir e a omitir verdades pouco convenientes. Além de demonstrarem uma confrangedora falta de argumentos, só serve para reforçar a opinião de quem pensa o contrário. E quem pensa o contrário também é, por princípio, contra a guerra. Só que ser contra a guerra não significa que ela não seja, por vezes, necessária. E, no caso do Iraque, tudo indica que evitará um problema maior. É isto precisamente o que está em causa. [Originalmente publicado em 24-2-2003]
VITAL. O senhor Vital Moreira, que em tempos escreveu uma crónica onde demonstrou a sua indignação perante um massacre que nunca existiu (e depois nunca teve a hombridade de admitir o erro), resolveu, na sua última crónica do Público, insurgir-se contra os países que assinaram um documento de apoio à política norte-americana para o Iraque e, de um modo geral, contra a mais que provável intervenção militar na região. Acontece que, para o fazer, o senhor Vital socorreu-se de argumentos muitíssimo convenientes mas, infelizmente, falsos. E o que disse Vital Moreira? Bom, para começar, que os inspectores da ONU «sublinham a cooperação das autoridades iraquianas nas tarefas de inspecção». Depois, que «o relatório [dos inspectores da ONU] enuncia a lista da destruição de armas desde a guerra do Golfo». Ora acontece que, sobre o primeiro caso, é público que os inspectores se queixaram de falta de cooperação do regime de Saddam. Ou seja, precisamente o contrário do que diz Vital. E toda a gente sabe que o relatório não contém qualquer lista de destruição de armas, que o senhor Vital exibe como se de um facto se tratasse. Com certeza que o ilustre senhor tem todo o direito de defender os seus pontos de vista e de proferir os disparates que muito bem entender. Mas convinha que alguém lhe lembrasse que não é correcto fazer passar por factos aquilo que não passam de meros desejos. Até porque, assim, qualquer tese cai pela base. Como caiu pela base a tese que defendeu na sua última crónica, embora não se tenha perdido grande coisa. [Originalmente publicado em 9-2-2003]
A BANDA. A Universidade de Vila Real anunciou a criação de uma banda pop-rock. Trata-se de um projecto pioneiro que em breve deverá estender-se a outras universidades, e até já se fala num encontro de bandas universitárias de rock. O seu principal responsável diz que a ideia é «dar oportunidade aos estudantes universitários de ouvirem outro tipo de músicas que gostam». E que o grupo tocará apenas temas originais com base em «algumas músicas clássicas adaptadas», diz o Semanário Transmontano, citando o mesmo responsável. Responsável que acha necessário «acabar com os preconceitos em relação à música pop-rock» e «dar aos jovens a música que eles gostam». E, para mostrar que não brinca em serviço, até já anunciou um concurso para escolher o nome da banda, o logótipo e o traje. Ora aqui está o que se chama uma boa notícia. Embora não se tenha percebido bem o que é isso de «músicas clássicas adaptadas», sem dúvida que a iniciativa é meritória. Espera-se agora que a Universidade de Vila Real avance para a criação de bandas punk, rap, trance, reggae, hip hop, new age, heavy metal, folk, rhythm & blues, soul, gospel, por aí fora. Sim, porque é preciso dar aos estudantes universitários oportunidade de ouvirem outro tipo de músicas que eles gostam. E ninguém duvida o quão importantes são estas iniciativas para os currículos universitários e, consequentemente, para o país. Palavra de honra que eu até já comecei a escrever uma letra. Começa assim: «Oh bila, serás pioneira,/ na pop e na cegueira. /Oh bila, serás a primeira,/ no rock e na asneira.» [Originalmente publicado em 28-1-2003]
O CRIME COMPENSA. O perdão fiscal decretado pelo Governo parece ter atingido o objectivo. E o objectivo, vale a pena lembrar, era arrecadar uns milhões de euros mais ou menos de um dia para o outro, que havia desígnios nacionais urgentíssimos a cumprir. Acontece que o Governo, com este expediente, acabou por premiar quem não cumpre, não deixando o gesto de ser lido como um estímulo para que tudo continue na mesma. Além de ser um insulto aos cidadãos cumpridores, que legitimamente se interrogarão se valerá a pena cumprir as suas obrigações a tempo e horas. Está bom de ver que os fins nem sempre justificam os meios. E que não se pode tapar um buraco abrindo outro, como foi claramente o caso. Optando por uma lógica puramente economicista em vez de actuar com firmeza contra os prevaricadores — que lhe teria permitido arrecadar o que lhe é devido e castigar exemplarmente os faltosos —, o Governo acabou por demonstrar que o crime compensa. Exactamente o contrário do que devia, pois é com atitudes como esta que as coisas são o que são. [Originalmente publicado em 13-1-2003]
A CAMPANHA. Não sei se «o futebol tem sido o 'bombo da festa' deste país», como diz o senhor Valentim. O que eu sei é que mal alguém se atreve a apontar um dedo a um dirigente da bola cai logo o Carmo e a Trindade e logo nos vêm lembrar a existência de uma “campanha contra o futebol”. Realmente esta gente da bola parece sentir-se intocável e segura de que nada ou ninguém os pode enfrentar, como lembrou Vale e Azevedo em livro recentemente lançado, embora ultimamente se tenha notado algum nervosismo. Desta vez, perante uma declaração do procurador-geral da República a dizer que há mais casos no futebol português a serem investigados, o presidente da Liga de Clubes ameaçou parar os campeonatos e as obras dos estádios e o presidente do Porto sugeriu que «todos os dirigentes desportivos deviam fechar os clubes e entregar as chaves ao presidente da República». Enfim, as ameaças da praxe por parte de quem se julga intocável. A novidade de tão malcheirosa novela são as declarações posteriores do presidente do Sporting. Além de subscrever as afirmações de uma ex-directora adjunta da Judiciária, que garantiu ser o futebol «um mundo de branqueamento de dinheiros sujos», Dias da Cunha não tem dúvidas que «há muitos sacos azuis» e «muito dinheiro sujo» no futebol português. Nem mais. O presidente do Sporting confirmou, alto e bom som, o que toda a gente suspeita. Se mais razões não houvesse, isto devia chegar e sobrar para que os demais dirigentes da bola moderassem um pouco a bazófia. Até porque não há dúvida que alguns deles são responsáveis pelo que há de pior no futebol português. [Originalmente publicado em 31-12-2002]
LÁGRIMAS DE CROCODILO. O alarido que por aí vai devido ao comportamento das televisões no caso de pedofilia é um manifesto exagero. Com o agravante de muitos dos que agora reclamam andarem há anos na política ou nos jornais, onde se calcula que tenham sabido o que se estava a passar e nunca abriram a boca. Não há bicho careto com coluna nos jornais que não tenha falado mal dos média, especialmente das televisões, acabando a fazer o mesmo julgamento sumário de que acusam as televisões. Não que as televisões não se tenham excedido — eu não vi mas acredito que se tenham excedido —, mas porque o caso tinha saído de cena em dois dias se não fossem esses excessos. E sair de cena em dois dias um caso desta envergadura é meio caminho andado para que a Justiça se demita das suas funções, de que já deu mostras no passado. Divulgaram as televisões pormenores perfeitamente escusados? Tudo indica que sim. Mas é bom não esquecer que já fizeram mais as televisões contra a pedofilia de que as instituições (in)competentes em dezenas de anos. É uma triste realidade mas é assim. De maneira que a cruzada a que estamos a assistir é não só um manifesto exagero como despropositada. Além de produzir efeitos contrários, já que ela desvia as atenções do essencial. E o essencial é que a Justiça falhou em toda a linha e não foi a primeira vez. Pelo que seria mais oportuno que estes senhores concentrassem as suas energias exigindo que se apure quem falhou e porquê. É repugnante algum «jornalismo» que por aí se pratica? Sem dúvida que é. Mas ainda mais repugnante é a choradeira desta gente, que hoje verte lágrimas de crocodilo pelo que ontem fingiu que não viu. [Originalmente publicado em 16-12-2002]
SUSPEITAS. Depois do imbróglio que deu origem à criação de uma comissão de inquérito, onde se tentou apurar demissões que levantaram suspeitas e que não abonaram nada a seu favor, a Polícia Judiciária volta a estar na berlinda. Desta vez acusada de nada ter feito para pôr termo a uma rede de pedofilia envolvendo peixe graúdo, para já não falar de acusações mais graves. Defendeu-se a Judiciária dizendo que nada sabia do caso, mas a Procuradoria-Geral da República tornou pública outra versão e a PJ lá foi obrigada a admitir que sabia. Quer isto dizer que a conclusão desta estória só pode ser uma: a Judiciária já não merece confiança. E quando a Judiciária não merece confiança aos olhos dos cidadãos, como já não merece confiança praticamente toda a máquina da Justiça, caminha-se invariavelmente para o grau zero da credibilidade das instituições e para um país de opereta. E não se pense que vai ser pelo facto de este caso de pedofilia ir até às últimas consequências (coisa que eu, aliás, duvido) que vão acabar as suspeitas que recaem sobre a Judiciária e toda a Justiça. Porque é legítimo suspeitar-se que outros casos houve que ficaram no segredo dos deuses e outros se seguirão sempre que envolverem peixe graúdo. [Originalmente publicado em 2-12-2002]
A MEDIOCRIDADE. Os políticos portugueses andam muito preocupados com o comportamento... dos políticos. O presidente Sampaio apelou à «sanidade da democracia». Mota Amaral diz que é preciso «mudar o tom do debate político». Mário Soares acha que se «criou um ambiente de desânimo» e Freitas do Amaral que se está a usar uma «linguagem de carroceiro». Manuel Alegre não tem dúvidas que estamos a assistir a um «apodrecimento da vida política» e Duarte Lima que se respira «um ar viciado». Louçã acha que «a República vive uma crise muito grave» e Santana Lopes que se «ultrapassaram limites». Tudo isto numa altura em que o principal acontecimento político foi o desempenho de uma comissão parlamentar de inquérito às demissões na Judiciária, que se reuniu à porta fechada para evitar que os jornalistas divulgassem pormenores eventualmente sensíveis que depois acabaram na praça pública revelados pelos senhores deputados. Comissão que, recorde-se, acabou em águas de bacalhau e com cenas pouco edificantes. A política portuguesa é assim: um sítio mal frequentado e cada vez mais longe dos cidadãos. Onde a mediocridade é a regra e o resto excepção. [Originalmente publicado em 18-11-2002]
O FUTEBOL. O último Boavista-Sporting terminou com o presidente do primeiro a dizer que o futebol é uma «mentira» e o treinador do segundo a fazer umas declarações misteriosas acerca do comportamento do árbitro. Isto uma semana depois de Porto e Benfica se terem envolvido numa batalha campal, seguida da inevitável guerra intestina. O futebol português continua uma vergonha, mas nem por isso incomoda os seus dirigentes. O senhor Valentim, que se mostrou indignado com as declarações de uma magistrada quando esta afirmou que o futebol «é um mundo de branqueamento de dinheiros sujos» e de «promiscuidades políticas (...) altamente nocivas para as instituições democráticas», já se esqueceu do que disse e age como se nada fosse com ele. A revelação de que os clubes estão cheios de dívidas ao fisco também não o incomodou, alegando que são «atoardas» e que a comunicação social está «contra o futebol». Como não incomodou ninguém o facto de o senhor Madaíl ter afirmado que «quem diz mal do futebol português é porque não gosta» e que Jaime Pacheco admitisse que o Boavista poderá «fazer mais faltas» para atingir os seus objectivos. Como não incomoda ninguém o facto de os árbitros estarem, há anos, sob suspeita, a começar pelos próprios. O futebol português não tem emenda. Graças a estes e outros senhores, tornou-se num espectáculo indecoroso nos bastidores e inexistente nos relvados. E quando mete política, então nem se fala. Veja-se o caso do Partido Socialista, que reagiu à notícia das dívidas considerando necessário que a Administração Fiscal discuta «muito seriamente a situação com os clubes» de molde a «chegar-se a uma conclusão negociada entre ambas as partes». Ou seja, os clubes não pagam o que devem e o PS acha que é preciso mais um «totonegócio». Dir-me-ão que o futebol português é o reflexo do País que temos. Pois seja, mas a mim já me parece que o contrário é que é verdadeiro. [Originalmente publicado em 3-11-2002]
OS PALERMAS. O secretário-geral do Partido Socialista achou por bem classificar de «palermas» os que duvidam da seriedade de um contrato que ele terá assinado quando era ministro. «Não tenho medo nenhum destes palermas que pensam que me intimidam com mentiras», disse ele em Barcelos, classificando de «calúnias e falsidades» as acusações que lhe fazem. Os «palermas» de que fala Ferro Rodrigues são dirigentes do PSD e do CDS, que se apressaram a protestar. O líder parlamentar do PSD considerou que foi um «grave insulto» ao Parlamento e seus deputados, alegando que atitudes destas só contribuem para o «descrédito da política portuguesa». O líder parlamentar do CDS considerou «baixo e inqualificável» o ataque de Ferro Rodrigues, avisando que, a ir-se por este caminho, «qualquer dia seremos um bando de rufias». O líder parlamentar do PS saíu em defesa do chefe para dizer que os deputados do Governo «enfiaram a carapuça», parafraseando Vasco Santana para lhes lembrar que «chapéus há muitos». O secretário geral do PS justificou o que disse com a necessidade de exprimir a sua indignação — a famosa indignação de que Soares disse ser um direito —, alegando que também tem coração. E daí?, perguntar-me-ão os meus estimados leitores. Daí que esta estória me fez lembrar a Câmara dos Deputados dos tempos de Eça, onde era frequente os ilustres parlamentares se comportarem «como se estivessem numa praça de touros». Nos melhores dias, recorda, os deputados diziam graçolas e troçavam uns dos outros; nos piores, grunhiam obscenidades e «espancavam-se com dignidade». [Originalmente publicado em 18-10-2002]
A DIVINA PROVIDÊNCIA. Nove e pouco da manhã em Pedras Rubras. Dezenas de pessoas aguardam a vez de passar a alfândega. Um sexagenário à minha frente é interrogado por um guarda-fiscal. Bigodinho malandro e ar de chico-esperto, o cavalheiro interroga o infeliz com umas perguntas muito mal-amanhadas, às vezes mal-educadas, com o intuito de o intimidar e de mostrar que, ali, quem manda é ele. Despachado o sexagenário para um canto, onde lhe ordenaram que abrisse as malas, eis que chega a minha vez. A criatura disparou de imediato o indicador em direcção a um saco que eu trazia e quis saber se aquilo era um computador. Depois, se o «comprei cá», se o «comprei lá». A seguir gaguejou umas palermices de que eu já me não lembro mas que tinham um objectivo claríssimo: intimidar-me. Satisfeita a curiosidade do homem, lá fez o favor de me deixar seguir. A cena fez-me lembrar outra muito parecida, há uns anos atrás, cujo final recordo com gosto. Começou por perguntar-me o guarda-fiscal se eu tinha passaporte, como se fosse possível eu ter chegado à sua presença sem passaporte. Lembro-me de me ter deixado sem resposta e de lhe ter apontado um saco de mão onde o dito espreitava, mas o que o cavalheiro queria realmente saber era se eu tinha «alguma coisa a declarar». Como não tinha, começou a fazer-me umas perguntas sem pés nem cabeça. Esgotada a cartilha e não lhe cheirando a nada, mando-me avançar. A cena podia ter morrido ali se não fosse a divina providência, ou lá o que foi no lugar dela, que decidiu agir em meu nome. Especando os pés de maneira a fazer avançar o carrinho das malas pela porta que a criatura ciosamente guardava, acabei por pisar generosamente o pé do cavalheiro com umas botas que eu trazia cujo piso tinha uns bons cinco centímetros de altura. Lembro-me de a criatura ter aberto a goela com estrondo e de não ser caso para menos. É claro que eu apressei-me a pedir-lhe desculpa, procurando demonstrar-lhe que, afinal, foi um mero acidente. E depois prossegui o meu caminho com os olhos do guarda nas minhas costas, seguramente a pensar se eu não fiz de propósito. É claro que vontade não me faltou, mas eu posso garantir-vos que não fiz de propósito. Mas, quem quer que o tenha feito por mim, lá sabia o que estava a fazer. [Originalmente publicado em 2-10-2002]
DISPARATES. Como seria de esperar, o aniversário do 11 de Setembro serviu para dar largas ao antiamericanismo primário e a mais um cortejo de disparates. Até Miguel Sousa Tavares, por quem nunca escondi admiração pela coragem com que assume as suas ideias, não ficou imune à hecatombe de parvoíces. Disse Sousa Tavares, no Público, que George W. Bush é «estúpido», «cabotino» e «esteticamente insuportável» (!), e que «cem milhões de americanos (...) são exactamente iguais e revêem-se nele». E ainda que os EUA se foram «tornando cada vez mais parecidos com os seus inimigos emergentes do mundo árabe extremista», nomeadamente no que respeita ao «mesmo fanatismo religioso, o mesmo voyeurismo moralista sobre as ovelhas tresmalhadas do rebanho, a mesma paranóia nacional de perseguição ao outro, às suas diferenças, gostos ou vícios». Enfim, evidências para ele que, para mim, que aqui vivo há 15 anos, nunca o foram. Essa estória de os americanos serem estúpidos, por exemplo, só mesmo para me fazer rir. Já quanto ao facto de os americanos serem «fanáticos religiosos», confesso que essa nunca ouvi. Julgava eu que os EUA são dos poucos países do Mundo onde as «diferenças, gostos ou vícios» de cada um são respeitados, não só na lei mas na prática, mas parece que assim não é. Quanto à «paranóia nacional de perseguição ao outro», não vislumbro onde foi buscar semelhante disparate. Eu sou ateu, bebo uns copos quando me apetece e faço outras coisas que agora não digo e nunca me senti perseguido. De maneira que há aqui um equívoco: ou eu não vivo nos EUA, ou o Miguel não sabe do que fala. [Originalmente publicado em 13-9-2002]
TUDO NORMAL. Meio-dia em ponto num restaurante portuga. Ao balcão, dois patrícios enchem as ventas de peixe. O mais velho arrota sem cerimónia e não se cansa de gabar o tintol. Que não quer saber da viagem, que a ele ninguém o apanha a guiar; que esta vida são dois dias, quem cá ficar que se amanhe. O mais novo faz que sim com a cabeça e depois dá uma risada nervosa. Já no brandy, o mais velho informa o mais novo que a taxa de álcool é agora de 0,2 por centro. Zero vírgula dois por cento, repete ele ao mais novo, certificando-se de que este ouviu bem o que ele disse e ignorando que a lei já não é assim. «Mas atão isso é só uma cerbeija», concluiu o mais novo num golpe de lucidez. E depois abaixou o focinho para a sobremesa e resmungou um palavrão. Numa mesa, numa daquelas onde se vê tudo quanto se passa, um casal fala alto e põe defeitos em tudo. Que a comida não devia ser assim mas assado; que o serviço é uma merda; que está sol mas devia chover. A pouco distância, um jumento assobia um fadinho enquanto observa quem sai e quem entra. Às vezes mete o mindinho numa orelha, escarafuncha generosamente e depois fica a olhar a merda que fez. Completa este magnífico cenário um cavalheiro todo vestido de branco com manchas de surro por todo o lado, que se entretém a bater com o garfo numa faca enquanto aguarda a manjedoura. Trata-se do cozinheiro, um tipo baixote que eu nunca vi sem a fardeta naquele estado e sem um lápis encavalitado numa orelha. A novidade é que agora espirra que se farta, nem sempre em direcção a um lenço num estado miserável, e eu começo a imaginar a criatura na cozinha a espirrar gafanhotos por todo o lado. Mas nada que não esteja dentro da normalidade, não senhor. Anormal, aqui, só eu. [Originalmente publicado em 30-8-2002]
O ESCALDÃO. Estava eu a reler a descrição do almoço do Jacinto e do Zé Fernandes em Tormes, após uma atribulada viagem de Paris (A Cidade e as Serras), quando o empregado que me serviu o almoço tropeçou em não sei quê e despejou um café no balcão à minha frente que, por um triz, não me atingiu as canelas. Afastadas as ditas mesmo a tempo de me livrar de um escaldão, reparei na cara do infeliz que, lembrei-me logo, uns dias antes eu tinha avistado numa cena muito parecida. Reconstituí mentalmente o episódio: um tropeção em não sei quê e uma sopa a escaldar que, por pouco, me não caiu em cima. Espantoso! Observei o empregado pelo canto do olho mas não me pareceu haver razões para suspeitar que tudo não passou de uma coincidência, uma daquelas coincidências sem importância quando acontece aos outros. Tanto mais que, metida a mão na consciência, não vi razão porque haveria alguém de querer fazer-me mal. Pelo menos foi esta a conclusão a que cheguei quando, na noite a seguir ao incidente, acordei a meio de um sonho em que eu tinha apanhado um escaldão. [Originalmente publicado em 14-8-2002]
JUSTIÇA. Francisco Moita Flores afirmou recentemente, no Diário de Notícias, que a «actual figura jurídica do segredo de justiça» é hipócrita, já que ela permite que se revelem aos jornalistas «segredos por debaixo da porta» que, «pelo postigo», se não podem revelar. Com «essa forma vigarista de fazer justiça de pacotilha», diz ele, não são poucos «os homens e mulheres que há anos pagam uma factura pesada», já que a «impotência de condenar arguidos» resulta num verdadeiro atentado contra «a dignidade e a honradez de muitos cidadãos». Moita Flores acusa ainda os jornalistas de entrarem neste jogo nada sério e eu só posso concordar. Acontece que, não defendendo eu o actual modelo de segredo de justiça de que ele fundadamente discorda, é bom não esquecermos que ele tem um mérito: o de «fazer justiça» na praça pública a alguns tubarões que, devido às prescrições ou engenhosas faltas de provas, jamais seriam condenados pelos tribunais. [Originalmente publicado em 30-7-2002]
INCOMPATÍVEL. Bem pode argumentar-se que o exercício simultâneo dos cargos de deputado e jornalista é compatível que salta à vista de todos que não é. O que diz a lei? Não sei nem me interessa. O que me interessa é que o exercício simultâneo dos cargos de deputado e jornalista cria um inevitável conflito de interesses. Quer se queira, quer não. Aliás, estou mesmo convencido de que qualquer pessoa pouco familiarizada com a matéria detectará a evidência se pensar um pouco no assunto. Infelizmente Maria Elisa assim não pensa e até já veio dizer-se vítima de «uma campanha» contra a sua pessoa, logo após ter sido obrigada a suspender a sua actividade como jornalista a «convite» do seu próprio partido. Extraordinário que, como pessoa inteligente que todos dizem que é, Maria Elisa não tenha visto a incompatibilidade logo desde o início, não é? A justificação para o exercício em simultâneo dos dois cargos com base na premissa de que nunca foi sua intenção «fazer informação política» na RTP mas apenas «entrevistas culturais ou sociais» enquanto for deputada é um argumento tão frágil que chega a ser caricato. Além de um verdadeiro insulto à inteligência de todos nós e de não a abonar mesmo nada como deputada e como jornalista. [Originalmente publicado em 16-7-2002]
VERGONHAS. Agora que a poeira parece ter assentado, apetece-me dizer umas coisas acerca da selecção nacional. Em primeiro lugar, nunca me passou pela cabeça que a participação portuguesa no Mundial de Futebol fosse a vergonha que foi, não propriamente pelos resultados em campo mas por aquilo que não jogámos. Em segundo, pela atitude demonstrada por jogadores como João Pinto, inadmissível numa selecção nacional e merecedora de castigo exemplar por parte de quem manda na federação. Em terceiro, pelo comportamento do senhor Oliveira, que depois de errar descaradamente ainda foi preciso que o pusessem na rua senão ainda agora lá estava. Por último, a patética conferência de imprensa do senhor Madaíl para anunciar o afastamento do seleccionador nacional demonstrou a quem dúvidas tivesse que o senhor Madaíl não serve. Ser o único dirigente da bola com coragem para enfrentar a multidão na Portela, como ele fez questão de lembrar, pode abonar a seu favor mas não o isenta de culpas. E se há um culpado por aquilo que se passou na Coreia parece-me evidente que é o senhor Madaíl. [Originalmente publicado em 1-7-2002]
BESTAS. Na terça éramos os melhores. Na quarta, os piores. Na segunda a seguir, de novo os maiores. Na sexta... bem, na sexta passámos a ser uma vergonha. De bestiais passámos a bestas, para usar (ao contrário) a terminologia do senhor Oliveira. Com certeza que o Figo devia ter ficado no banco. Sem dúvida que o Rui Costa devia ter jogado de início. É claro que o João Pinto nem sequer devia ser convocado. Pauleta? Por amor de deus. Ele nem português é! O senhor Oliveira!? Será que o senhor não vê que ele não percebe nada de bola? E por aí adiante. Exactamente o contrário do que ontem foi dito e do que será dito amanhã. Porque está escrito que a nossa selecção tem que ser a melhor, custe lá isso o que custar. Se não for, os jogadores só podem ser umas bestas e o seleccionador um jumento. Isto para já não falar dos «mafiosos» que controlam a selecção, como se diz por aí a torto e a direito mas depois ninguém se atreve a revelar os nomes dos cavalheiros e muito menos que poderes eles têm. E do regresso do D. Sebastião (ou do Humberto Coelho, como queiram), que os mesmos que ontem disseram não servir já mostraram querê-lo de volta. É claro que a estratégia frente à Coreia tinha sido brilhante... se não tivéssemos perdido. Mas a verdade é que perdemos e a música passou a ser outra. Muito pimba e bem portuguesa, como seria de esperar. Sobretudo por não se lembrarem estes músicos de ocasião que estão hoje a apupar o que ainda ontem aplaudiam. Por mim, só gostava de dizer a estes senhores que duvido que os nossos artistas pudessem ter feito melhor. Mas já não tenho dúvidas que esta gente não merecia melhor. [Originalmente publicado em 4-6-2002]
O ÚLTIMO A RIR. Apesar de reconhecer que o País atravessa um momento difícil, o doutor Aberto João já veio dizer não aceitar que a crise penalize a Madeira, pela simples razão de que quem «descarrilou» foi o Estado e não ele. «Eu não pago as asneiras dos outros», disse ele num relatório, e ninguém duvida que assim será. Aliás, porque haveria ele de pagar as asneiras dos outros se nunca pagou as que ele próprio cometeu? Evidentemente que não faria sentido. Como não faz sentido que a informação da RTP-Madeira continue a não ser «isenta», «objectiva» e «plural», como ele não se cansa de dizer, apesar de a oposição lhe chamar um «telejardim». Mas não será por muito mais tempo, já que Alberto João promete transformar a televisão da Madeira numa sociedade anónima, obviamente a controlar pelo Governo Regional de que ele, por um mero acaso, é o seu presidente. Mostrando estar em belíssima forma, o presidente da Madeira não se ficou por aqui. Numa altura em que a ordem é congelar as contratações na Função Pública, na Madeira o doutor Alberto João já disse que vai admitir mais 1.395. Com certeza que todos estes desmandos, vindos de quem vem, têm sempre muita piada e hão-de morrer por aqui. E, para não variar, ele há-de ser o último a rir. [Originalmente publicado em 2-6-2002]
RTP. Independentemente das razões que assistem aos funcionários da RTP para manifestarem a sua discordância em relação à decisão do Governo sobre o futuro da estação pública de televisão, nomeadamente aos seus jornalistas, é inadmissível e vergonhoso o tratamento claramente privilegiado que a mesma RTP, através dos seus telejornais (só tenho visto os telejornais), tem dado ao caso, demonstrando não ter pudor em usar os meios de que dispõe para chantagear a tutela e, muito pior, ajuizar em causa própria. Isto para já não falar das manifestações «espontâneas» protagonizadas por funcionários da televisão pública e outras «forças vivas», que se multiplicaram por todo o País de modo a coincidirem com os telejornais, e do tão falado telenegócio, como se a RTP tivesse qualquer autoridade moral para se insurgir contra supostos telenegócios. E como se já não bastasse mais esta vergonha para o jornalismo português, andam agora a dizer que o Governo se prepara para acabar com o «serviço público». Eu pergunto: de que serviço público está esta gente a falar? Do serviço público que toda a gente dantes dizia que a RTP não cumpria? Ou será do serviço público que toda a gente diz ser fundamental mas depois ninguém sabe dizer o que é? Infelizmente ninguém está interessado em esclarecer estas dúvidas. Mas nem tudo foi lamentável nesta novela de mau gosto, já que a decisão do Governo teve o mérito de pegar o touro pelos cornos e de trazer à ribalta a discussão sobre o que deve ser o serviço público de televisão. É claro que discutir esta matéria é mais ou menos como discutir o sexo dos anjos e não vai ser pêra doce chegar a um consenso. Mas só depois de se saber que serviço público se pretende para a televisão do Estado faz sentido discutir o futuro da RTP, nomeadamente quantos canais serão necessários. E se ainda tem razão de existir um Conselho de Opinião, que se cobriu de ridículo da última vez que foi chamado a intervir e demonstrou nem saber quais são as suas competências. [Originalmente publicado em 18-5-2002]
MARGARIDAS. Margarida Rebelo Pinto acha que tem «uma intuição filha da puta» para o negócio dos livros. Numa extensa entrevista concedida a O Independente, há uns tempos atrás, a jornalista fez questão de assumir que escreve livros com um olho no mercado e que teve o cuidado, no seu último, de suprimir toda «a lixeira» contida nos anteriores. Sobre os seus estimados leitores, que diz serem entre 200 mil e 300 mil, Margarida garantiu que eles vão das tias da linha aos ciganos não sei de onde. Dos «colegas» escritores, Margarida queixou-se de que não lhe ligam nenhuma e que se perdem em masturbações intelectuais, embora eu suspeite que ela queria dizer outra coisa. Dos críticos que acham os seus livros uma magnífica estopada, e que diz serem 10 em 50 mil, Margarida irrita-se porque nem se deram ao cuidado de os ler. Sobre o Mundo em geral, Margarida espera «purificar um bocado as coisas» com a publicação dos seus livros, e sobre o seu em particular, às vezes sente-se inútil porque não sabe se está «a ajudar as pessoas». E daí?, perguntar-me-ão os meus queridos leitores. Daí que eu acho muito bem que Margarida publique os livrinhos que muito bem lhe apetecer com o intuito de purificar as coisas e, de caminho, embolsar uns dinheiros. Só acho extraordinário é que haja tanta gente a ler margaridas quando todos os estudos dizem que ninguém lê. E que todo o bicho careto que faz sucesso nas tvs tenha desatado, de um momento para o outro, a escrever livros sobre tudo e mais alguma coisa apenas com o intuito de explorar o filão. Dizia Vasco Pulido Valente (entrevista à Ler do último Inverno) que se acalma a ler «trash». Será que ele é um caso isolado ou são os portugueses que andam demasiado nervosos? [Originalmente publicado em 10-5-2002]
CAUSAS. Finalmente começa a surgir algum bom senso na discussão à volta do conflito que opõe israelitas a palestinianos. Ou, se quiserem, algum equilíbrio de posições. Depois de dias e dias com toda a espécie de notícias e comentários em que os palestinianos aparecem como uns mártires e os israelitas como um bando de assassinos, começa a ouvir-se quem assim não pensa e proteste contra este lamentável «jornalismo de causas», como já lhe chamou Pacheco Pereira, que nos quer fazer crer que os israelitas são um bando de malfeitores e os palestinianos uns pobres coitados. Mesmo quem não conhece em profundidade o conflito que opõe uns a outros é capaz de já ter descoberto que ambos têm as mãos tão manchadas de sangue que se torna difícil condenar apenas uma das partes. Por muito forte que seja a imagem nas tvs dos palestinianos a defenderem-se à pedrada dos tanques israelitas isso não significa que toda a verdade esteja do lado dos palestinianos. É bom também não esquecer que, no que respeita às personalidades em conflito, o senhor Sharon pode ter falhado em toda a linha e cometido erros gravíssimos, mas já outros no seu lugar tentaram a paz com o senhor Arafat com os resultados que se conhecem. De maneira que seria bom que a imprensa, rádio e tv começasse por revelar todos os factos conhecidos dos dois lados do conflito, deixando que cada um ajuíze pela sua própria cabeça aquilo que houver para ajuizar. Porque a primeira causa do jornalismo deve ser divulgar os factos, todos os factos. Não apenas os que nos convêm para defender esta ou aquela tese. [Originalmente publicado em 27-4-2002]
OLHA O QUE EU DIGO. A Igreja Católica Portuguesa decidiu criticar «a excessiva tolerância da comunicação social para com comportamentos sociais que não se coadunam com a matriz tradicional da sociedade portuguesa» (Público, 10 de Abril). D. Tomaz da Silva Nunes, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, considerou, ainda segundo o Público, que os média concedem uma «tolerância ilimitada para com comportamentos que não correspondem às tradições portuguesas», embora não esclarecesse a que tradições se referia. O bispo auxiliar de Lisboa defendeu ainda que «os média devem ter um papel mais activo na manutenção dos valores dos povos» e que, referindo-se a temas como o aborto ou a infidelidade, eles têm contribuído «para anestesiar a consciência de valores fundamentais». O senhor bispo não tem dúvidas que «a comunicação social deve ter em vista a promoção da dignidade das pessoas e a sua formação», denunciando o que está mal e aplaudindo o que está bem. Resumindo e concluindo, o secretário da Conferência Episcopal Portuguesa deixou claro pelo menos duas coisas: em primeiro lugar, que a Igreja Católica portuguesa ainda não percebeu o papel dos média numa sociedade em que a religião está separada do Estado; depois, que os pasquins retrógrados de que é proprietária por esse país fora não lhe confere qualquer autoridade moral para vir dar lições sobre o que deve ser o papel dos média. [Originalmente publicado em 12-4-2002]
BARROSO. Parabéns dr. Barroso. Também eu não dava um tostão por si como líder do PSD e jamais me passou pela cabeça que chegasse a primeiro-ministro. Mas a realidade encarregou-se de demonstrar que eu estava errado e já decidi que, a partir de agora, em matéria de política e afins vou seguir o método do João Pinto, que só faz prognósticos no final do jogo. Antes, porém, permita-me que eu arrisque um último palpite: com ou sem aliança com o PP, não tarda nada que o dr. Portas lhe coma o caldo na cabeça. Como se isso não bastasse, o prof. Cavaco já demonstrou largamente que não resiste a meter o bedelho sempre que lhe dá na bolha, o prof. Marcelo tudo fará para o fritar em lume brando e o inevitável Alberto João já avisou que os deputados da Madeira não são favas contadas. Ou seja, o senhor tem um militante do seu partido ou arredores em cada esquina disposto a liquidá-lo mal surja uma oportunidade. Tudo por causa do matrimónio de conveniência com o dr. Portas, que há-de sair incólume caso as coisas corram para o torto. E ninguém duvide que estão criadas as condições para que as coisas lhe corram mal, apesar de a procissão ainda ir no adro. De maneira que aconselharia a mais elementar prudência que o senhor se precate, pois é a si que cabe pagar a conta caso alguém apresente a factura. [Originalmente publicado em 29-3-2002]
A IMAGEM. Numa altura em que toda a gente não se cansa de dizer que a Saúde está moribunda, a Justiça precisa de um fueiro e a Educação é uma balda, o presidente da República elegeu como prioridade nacional intervir na comédia da bola. A ideia do senhor presidente terá sido apelar à continência verbal das partes desavindas e lembrar aos ilustres cavalheiros que está em jogo o Europeu de Futebol e a imagem lusitana no Mundo. Ou seja, que tenhamos uma Saúde cada vez pior, uma Educação que não educa ou uma Justiça que não funciona, são coisas que não importam ao senhor presidente da República. O verdadeiro desígnio dos portugueses que ele superiormente representa é provar ao Mundo e arredores que somos capazes de realizar o Europeu ou outras enormidades do género. De maneira que só nos resta esperar que o Mundo nos veja conforme lhe pretendemos mostrar e não como um bando de pelintras, que disfarça com um casaco vistoso a camisa que lhe fica curta nas mangas. [Originalmente publicado em 15-3-2002]
A CARTA. Naquele dia levantei-me decidido a renovar a carta de condução portuguesa, custasse lá o que custasse. O primeiro passo a dar, tinham-me dito, era dirigir-me a um escritório da Direcção-Geral de Viação. Uma vez lá chegado e esperada meia hora na fila, uma simpática menina informou-me que eu necessitava de um atestado médico passado pelo delegado de saúde, presumo que a garantir que eu via bem e estava bom da cabeça. Lá fui em busca da Delegação de Saúde, que eu já não sabia onde era. Parei o automóvel logo que avistei um polícia, a quem pedi que me avivasse a memória. O polícia consultou um livrinho durante alguns segundos, coçou generosamente a careca por debaixo do chapéu e decidiu que não sabia. Mas comunicou com a esquadra pelo rádio e lá conseguiu dizer-me onde era. Já dentro da repartição, uma funcionária informou-me que eu necessitava de preencher o impresso modelo x à venda na livraria y, ao qual deveria juntar mais não sei quanto de selos. Depois era só entregar a papelada e dali a dois dias apresentar-me para ser visto pelo médico. Ocorreu-me perguntar-lhe porque razão não tinham eles ali os impressos de que eu necessitava, mas achei melhor calar-me ao imaginar que ela me ia responder que não sabia, que não era nada com ela, e às tantas ainda me ia emperrar o processo por causa do atrevimento. Perguntei-lhe apenas a que horas devia eu estar ali para ser visto pelo médico e se ela achava que eu iria ter que esperar muito tempo. Respondeu-me que o ideal seria logo pela manhã e que o médico tanto podia chegar de manhã como de tarde. Consultei o relógio já a descer as escadas da repartição e concluí que, para apanhar o tal impresso na livraria y, tinha que me apressar, pois estava a fechar para almoço e depois só dali a duas horas. Já a caminho da dita imaginei-me umas horas na delegação à espera que o cavalheiro se dignasse pôr lá os pés e assinar-me a papelada, provavelmente sem se dar à maçada de me consultar, e decidi logo ir almoçar e a carta que se lixasse. Já quase esquecido da aventura, cruzei-me com um amigo meu que eu não via há anos e a quem acabei por contar a minha desgraça. O meu amigo ouviu a estória calado e no fim perguntou-me: «Tens a papelada contigo?» Não tinha mas podia-se arranjar. «Então arranja lá os papéis que eu trato-te disso», rematou. Ainda me ocorreu perguntar-lhe se me estava a dizer que eu não necessitava de ser visto pelo delegado de saúde, mas achei melhor meter a viola no saco. Quis apenas saber quando poderia eu ter o processo de volta. «Se me deres hoje os papéis, fica pronto amanhã. Serve?» Servia. Despedi-me do meu amigo e fiquei a cismar no assunto. Realmente assim era tudo muito mais simples e eu não tinha que me incomodar. Além disso era uma maneira muito portuguesa de resolver este tipo de coisas, convinha não esquecer. A verdade é que fiquei tão revoltado que ainda hoje não tratei do assunto. Mas já tratei de saber onde encontrar o meu amigo. [Originalmente publicado em 4-3-2002]
MONTEIRO. O dr. Manuel Monteiro admitiu, no Verão passado, criar um novo partido político caso o CDS/PP não o quisesse para líder. Realizadas as eleições nos populares, em que Monteiro foi candidato a líder, o partido respondeu com uma estrondosa derrota. Passado um mês após o resultado humilhante, o dr. Monteiro volta a ameaçar criar um novo partido, agora depois de 17 de Março, supõe-se que depois de saber como ficaram as modas. Apesar de a ideia já ter quase um ano, ninguém sabe ao certo o que pretende Monteiro com este novo partido. Por junto, sabe-se apenas que pretende coligar-se com o PSD e, assim, chegar ao poder. E que Monteiro quer ser líder de um partido político, custe lá o que custar. Nem que, para tal, tenha que criar um. E depois queixam-se os nossos políticos de que a credibilidade de que desfrutam no mercado do voto já não é o que era. Como se não fosse por estas e por outras que deixamos de acreditar neles. Como se não fosse por estas e por outras que os nossos políticos se transformaram em pessoas a quem temos receio de confiar um simples guarda-chuva. [Originalmente publicado em 17-2-2002]
PORTUGAL DE FACHADA. Esta história do diz-que-disse à volta do novo Estádio da Luz ainda agora começou e já ultrapassou o que seria previsível. Segundo percebi, a grande questão é saber se Soares prometeu, ou não, dois milhões e meio de contos ao Benfica, e se garantiu, ou não, que iria rever o Plano Director Municipal de modo a permitir o aumento da área pretendido pelos seus dirigentes. Quer isto dizer que, se o doutor Soares admitir que prometeu aquilo de que é acusado, o novo presidente alfacinha satisfará as pretensões do Benfica? Tudo indica que sim. Apesar de qualquer leigo saber que este tipo de compromissos só é válido se existir no papel, o doutor Lopes aparece a querer legislar com base no diz-que-disse ou em hipotéticos compromissos verbais, julgando assim livrar-se de tão delicado imbróglio. Mas, se não há compromissos verbais, bem pode o doutor Lopes garantir que a Câmara não dará um tostão ao Benfica e o ministro José Lello insistir que o Governo não irá «alterar uma vírgula» ao que foi acordado. Ele há-de aparecer um expediente qualquer que permita dar a massinha ao senhor Vilarinho e, ninguém duvide, ela há-de sair dos bolsos de todos nós. Razão têm os dirigentes do Benfica em avançar com a obra mesmo sabendo que o ovo ainda está no cu da galinha, pois eles sabem bem que, chegado o aperto, o Governo ou a Câmara não têm coragem de lhes fazer um manguito. Como, aliás, muito bem sabem os dirigentes dos demais clubes da bola a braços com o mesmo problema, que já esfregam as mãos de contentes com a perspectiva de embolsar mais uns milhões. Porque as derrapagens orçamentais são por demais evidentes e os estádios da bola vão ter que estar prontos a tempo de exibir aos incautos o Portugal de fachada. [Originalmente publicado em 1-2-2002]
A ILUSÃO. Numa semana inteiramente dominada pelo regresso de Mourinho ao Futebol Clube do Porto, que mereceu honras de abertura dos telejornais durante dois ou três dias e directos televisivos a roçar o anedótico, apetece-me falar de um e-mail que recebi um dia destes. Dizia assim a missiva: «Somos uma empresa multinacional que tem 22 anos de mercado e está representada em 54 países. A empresa é líder mundial no seu sector e tem várias actividades para desenvolver a partir de casa ou de um escritório, podendo obter um excelente rendimento extra sem prejudicar o seu quotidiano.» Fui ver o sítio na «net» (www.trabalhe-em-casa.com) a pensar qual das minhas amigas teria fornecido o meu e-mail aos cavalheiros a pretexto, disseram eles, de que eu poderia interessar-me pelo negócio. O sítio contém mais de uma dúzia de histórias de sucesso («todas verdadeiras», evidentemente) mas não esclarece a natureza do negócio. Lá se fala vagamente de um «instrutor» que guiará os candidatos na «estrada do Sucesso» e que os ajudará a «desenvolver uma nova forma de pensar». O resto só numa entrevista, cujo formulário se encontra no sítio e as criaturas aconselham vivamente a preencher. E não se pense pedir informações suplementares por e-mail, porque eles têm mais que fazer do que responder a perguntas. Além disso, tirando a natureza da coisa, está lá tudo explicadinho em quilómetros de prosa. Não, não se trata de um daqueles esquemas para «enriquecer-depressa-sem-fazer-nada», como eles fazem questão de sublinhar. Muito menos um negócio destinado a «pessoas meramente curiosas», que eles não têm tempo para aturar curiosidades alheias. O negócio é sério e a prová-lo está o aviso de que é preciso ter muito cuidado com os «ladrões de sonhos», deixando a ideia que sabem bem do que estão a falar. Com certeza que, comparado com o negócio do senhor Pinto da Costa, esta estória de sucesso não passa de um fait divers sem qualquer importância e provavelmente nunca merecerá honras de abertura de um telejornal. Mas nem por isso deixa de ser outra forma de vender a mesma ilusão. [Originalmente publicado em 25-1-2002]
GATO POR LEBRE. Definitivamente que os escritores portugueses estão a ser maltratados nos novos suportes digitais. Depois de aqui ter alertado para o facto de o CD Vida e Obra de Eça de Queirós (Porto Editora) conter falhadas e erros de monta — alerta que provocou a arrogância dos seus responsáveis —, tenho vindo a descobrir que as obras completas de Eça e Camilo reunidas em CD (Projecto Vercial) contêm tantos erros que alguns títulos chegam a ser ilegíveis. Ele são as gralhas resultantes da digitalização (às centenas), ele são os erros de pontuação (às dezenas), ele são as omissões, ele é tudo o mais que se suspeita quando se vê tanta asneira junta. Chegam a ser tantos os erros numa só obra que se torna impraticável a sua leitura. Ou então fica-se com a sensação que não se está a ler a obra de Camilo ou de Eça mas de alguém que por ali andou a mexer. Escusado será dizer que todo este aparente desleixo (quero crer que é de desleixo que se trata) com que foi tratado Eça e Camilo não atinge só os autores, que não estão cá para se queixarem. Ele atinge também quem comprou os CDs, por sinal nada baratos, que só pode concluir que lhe venderam gato por lebre. [Originalmente publicado em 14-1-2002]
MENOS QUE ZERO. Cabeça cheia com o que vem nos jornais e já sem me lembrar bem do percurso, é sempre com precaução renovada que circulo no chamado IP4. Percorrido o dito e uma vez chegado ao destino, a conclusão a que chego é a mesma de sempre: é verdade que a estrada tem uma curva ou outra que ultrapassa a imaginação, mas não é menos verdade que está devidamente assinalada. O resto é conversa fiada e desculpas de mau pagador. Bem sei que, em pouco mais de oito anos, já lá morreram centenas de pessoas, mas ainda assim não me convenço de que o IP4 é uma estrada especialmente perigosa. Perigosos são os aceleras e os chicos-espertos que por lá circulam na mais completa impunidade, para já não falar dos alcoolizados, que os números dizem ser mais do que muitos. Um exemplo? Desloquei-me a Portugal numa altura em que estava ao rubro a famosa «tolerância zero». Como necessitava de fazer algumas viagens de médio e longo curso, tratei de me informar qual seria a velocidade a que poderia circular nas auto-estradas sem que a polícia me incomodasse. Disseram-me que até aos 140 seria razoável e... assim fiz. Mas não tardei a verificar que eu era o único que circulava àquela velocidade. A demais tropa fandanga passava por mim numa correria louca e até cheguei a sentir que eu andava ali a estorvar. E não exagero se disser que não vi a mais leve presença da Brigada de Trânsito em centenas de quilómetros de auto-estradas e vias rápidas, IP4 incluído. Ora bem, se tudo isto se passa em plena «tolerância zero», o que não se passará quando a tolerância for mais do que zero? [Originalmente publicado em 4-1-2002]
A LISTA. Baptista-Bastos tem vindo a disparar, no Diário Económico, contra todos os que têm silenciado uma extensa lista de escritores que, na sua opinião, merecem visibilidade. O ilustre jornalista chegou a ponto de revelar a lista das vítimas e deixou no ar a ideia de que sabe mais do que disse. Eu não sei se o colunista do DE tem, ou não tem, razão no que diz, mas não me custa acreditar que assim seja. Também não sei se deveria ter ido mais longe no que disse, nomeadamente revelar quem são os jornais e os jornalistas que vetam quem e porquê. O que eu sei é que esta estória me faz lembrar outro tipo de imprensa, para quem um escritor é visível, ou não, consoante tem, ou não tem, um passado antifascista. Seguramente uma imprensa que não indigna Baptista-Bastos, mas que nem por isso deixa de praticar o que ele diz repugnar. Uma imprensa onde um escritor com passado antifascista merece ser lido e estimado, mesmo que seja medíocre. Uma imprensa onde quem não tem esse passado, ou um passado «suspeito», não merece uma linha, mesmo que seja brilhante. Revoltante a lista de que fala Baptista-Bastos? Sem dúvida. Tão revoltante como todas as listas com a mesma finalidade. [Originalmente publicado em 28-12-2001]
UM MANGUITO. Numa altura em que os especialistas se debruçam sobre as últimas autárquicas e se discute a sucessão de Guterres, vale a pena lembrar o retrato que Pedro Almeida Vieira fez do poder local na última Grande Reportagem. Diz o jornalista que, salvo honrosas excepções, os nossos autarcas transformaram o País «num amálgama de problemas». E que, em vez de se envergonharem, ainda lhes deu alento para distribuir mais promessas do mesmo. A construção desenfreada, a falta de espaços verdes e de equipamentos culturais e de lazer, a insegurança nos centros urbanos, as deficiências no saneamento básico e a ausência de debate sobre as denominadas «estratégias de desenvolvimento local» constituem, segundo o jornalista, «o quadro fiel daquilo em que se tornou a gestão dos municípios». Um quadro onde impera a desresponsabilização e a fiscalização não existe. Onde a receita dos autarcas de sucesso passa por «dar muitos alvarás de construção», por «atribuir muitos subsídios» e por pressionar os governos a resolver os problemas que eles próprios criaram. Onde todos os males são da responsabilidade dos governos e o que há de bom foi feito pelos municípios. Onde as câmaras criam empresas a esmo com a única finalidade de escaparem à lei. Onde o «verdadeiro modelo de desenvolvimento» assenta nos arranha-céus, na grande construção e nas fontes luminosas. Enfim, um quadro dominado há anos por criaturas cuja maioria acaba de ser reeleita. Mas nada disto tem grande importância, como se viu no último domingo. Importante foi saber que os laranjas saíram melhor que a encomenda, que os cor de rosa apanharam uma abada, que o líder dos azuis sobreviveu ao dilúvio. Que grande parte dos autarcas continue impunemente a destruir o País em nome do «desenvolvimento», é assunto que não interessa. É por estas e por outras que me apetece fazer-lhes um manguito. [Originalmente publicado em 20-12-2001]
MISÉRIAS. Segundo O Independente, a direcção da Polícia Judiciária decidiu instaurar um processo disciplinar a um ex-director daquela polícia porque este terá ofendido a dignidade dos seus membros. O ex-director acusou a PJ de praticar ajudas de custo falseadas, de falta de coordenação nas investigações, de perda de recursos humanos e de haver agentes de departamentos diferentes a investigarem os mesmos casos. E terá perguntado: «Até que ponto tem a PJ moral para investigar fraudes praticadas por outrem, quando, no seu próprio interior, a fraude (...) é vulgar?» Convém lembrar que o agente em causa tem 35 anos de casa e é por muitos considerado um dos melhores profissionais da história daquela polícia. De maneira que seria melhor a PJ esforçar-se por resolver as misérias caseiras em vez de perder tempo e gastar energias com manobras cuja única finalidade é calar as vozes incómodas. Porque assim nada vai resolver e da fama já se não livra. [Originalmente publicado em 8-12-2001]
O PROGRESSO. Duas notícias publicadas recentemente pelo Semanário Transmontano vieram lembrar-nos as misérias do nosso poder local. A primeira dá-nos conta que o candidato do PP à Câmara de Murça anunciou que está na corrida à autarquia essencialmente por razões «de ordem moral, social e económica». Na ordem moral, o ex-sacerdote diz que, se for eleito, pretende devolver o velho crucifixo às escolas e obrigar os filhos a pedir a bênção aos pais, como se fazia antigamente. Na ordem social, o candidato afirma que pretende ganhar dinheiro. Assim mesmo: ganhar dinheiro. E, honra lhe seja feita, fez questão de deixar claro que não está a brincar. Na ordem económica, a criatura diz que pretende instalar no concelho uma fábrica de não sei quê que esteve para ser montada não sei onde. A troco de uma comissão, evidentemente, que ele está na política para ganhar o dele. A segunda notícia do Transmontano dá-nos conta de uma saibreira a funcionar numa reserva ecológica, ou seja, numa área onde este tipo de práticas devia ser impensável. E com uma pequena particularidade: é explorada por uma Câmara Municipal (de Chaves) e por diversas Juntas de Freguesia. Levantada a questão, as Juntas admitem o atropelo à lei e «compreendem» o problema, mas lembram que o saibro dali é de grande qualidade. Além disso, recordam, há que «compor caminhos e rasgar novos estradões». A autarquia local finge que não sabe de nada. Por junto, o seu presidente diz que a Câmara se limita a emprestar as máquinas às Juntas de Freguesia e que estas sabem muito bem o que andam a fazer. Aliás, se dúvidas houvesse que as Juntas sabem muito bem o que andam a fazer, o presidente apressou-se a garantir que, no lugar delas, faria na mesma. Evidentemente que tudo isto para bem das freguesias e, presume-se, do respectivo progresso. Aliás, deve ser por isso que as entidades responsáveis pela vigilância da área não sabem de nada, apesar de a saibreira ser visível a quilómetros de distância. Compreende-se. Lutar contra o «progresso» não compensa e tem inconvenientes. Excepções, estes senhores? Podem ser. Se virmos bem, a regra é capaz de ser pior. [Originalmente publicado em 27-11-2001]
INTELECTUAIS DA TRETA. Vários foram os intelectuais que se queixaram, nos jornais, que têm sido vítimas dos que acham que, sobre a reacção americana aos atentados de 11 de Setembro, só há duas atitudes: ou se está a favor, ou se está contra. Dizem as ilustres cabecinhas que têm todo o direito de discordar da guerra, que ser contra a refrega não significa que se é antiamericano, que ninguém os pode impedir de pensar. Enfim, uns perseguidos. Só que salta à vista de um cego que as esfarrapadas queixinhas destes senhores se destinam a esconder uma evidência: a falta do mais elementar argumento para defenderem os seus pontos de vista. Nenhum destes intelectuais da treta foi capaz de dizer, até agora, o que fazer após os acontecimentos de 11 de Setembro. É verdade que um ou outro defendeu que devia ser a ONU a chamar a si a condução do processo, mas fê-lo de forma vaga e não avançou a mais leve ideia como fazer e o quê. É claro que todos eles foram unânimes em condenar os ataques terroristas, embora alguns tenham disfarçado mal o gozo que lhes deu. Só que, depois, esforçaram-se por arranjar toda a espécie de argumentos contra os americanos, transformando as vítimas em culpados. O que não aconteceu com os terroristas, sublinhe-se, sobre quem não se cansaram de explicar as causas que os terão levado a agir como agiram, acabando, assim, por legitimar os seus actos. Se isto não é antiamericanismo primário, então é o quê? Como é que se pode dizer que, perante Bush e Bin Laden, venha o Diabo e escolha? Como é que se pode dizer que a reacção americana é igualmente um acto terrorista? Em vez de andarem por aí a queixarem-se pelos cantos, que tal estes senhores virem explicar, com argumentos concretos, o que os americanos deviam ter feito? [Originalmente publicado em 17-11-2001]
POLÍTICOS. O presidente da República garantiu que não violou a Constituição ao promulgar a Lei de Programação Militar. Segundo ele, a aprovação foi feita com base numa prática parlamentar «existente há décadas», «criada e aceite por todos os grupos parlamentares» e «que em nada contraria a Constituição». O acordo de que falou o presidente Sampaio prevê a dispensa da contagem dos votos, a menos que ela seja pedida por algum deputado no momento da votação (o que não terá acontecido). Convém lembrar que a Lei de Programação Militar deveria ter sido aprovada na Assembleia da República pela maioria dos deputados (116, no mínimo). Só que, por «lapso», acabou aprovada por apenas metade dos parlamentares em funções (115). Denunciado pelo Expresso, o erro foi prontamente corrigido com recurso a um curioso expediente: um deputado do PS, que terá estado presente no momento da votação mas que se terá esquecido de assinar a acta de presenças, assinou a dita e assim se chegou ao mínimo requerido (116). O Expresso decidiu investigar melhor o caso e posteriormente descobriu que os deputados que votaram a lei não excediam, afinal, as sete dezenas. Mesmo assim, o presidente Sampaio decidiu promulgar a lei. O PSD protestou forte e feio. Durão Barroso disse que o chefe de Estado «cometeu um acto que viola a Constituição»; Marcelo Rebelo de Sousa demitiu-se do Conselho de Estado. Mas os líderes parlamentares, incluindo a líder parlamentar dos social-democratas, apressaram-se a reconhecer a validade da votação. Os últimos desenvolvimentos de tão edificante novela dão-nos conta que haverá mais leis inconstitucionais. Ou melhor, mais leis aprovadas pelo mesmo processo. Evidentemente que, daqui a uma semana, o assunto está arrumado e já ninguém se recorda de nada. Além disso, quem se lembra da última lei que foi cumprida? [Originalmente publicado em 9-11-2001]
COINCIDÊNCIAS. Maria Elisa queixou-se recentemente, no Diário de Notícias, que «para os ricos não há controle» de álcool na estrada. Socorrendo-se de uma experiência pessoal, a jornalista disse que lhe ficou a ideia de que os proprietários de Mercedes e BMs estão a salvo do famoso balão, já que as autoridades estão demasiado ocupadas com os Polos e os Corsas. Não sei se assim é. Mas que parece, lá isso parece. Obrigado a fazer longas viagens em pleno auge da famosa «tolerância zero», percorri centenas de quilómetros em auto-estradas e vias rápidas sem nunca ter detectado a mais leve presença da Brigada de Trânsito. Achei estranho e contei a um amigo. Um amigo que todos os dias percorre centenas de quilómetros em excesso de velocidade para ganhar a vidinha. «Eh pá, se queres encontrar a Brigada de Trânsito basta meteres-te numa estrada secundária», disse ele. E depois acrescentou: «Mas vais ver que não vês lá parados carros de grande cilindrada.» Convém dizer que o meu amigo nunca escondeu o seu ódio por fardas e sempre achou que as polícias só chateiam os pobres coitados ou quem anda a trabalhar. De maneira que, pensei eu, talvez fosse um exagero. A verdade é que, uns dias depois, das duas ou três vezes que tinha avistado a Brigada de Trânsito nas tais estradas secundárias só a tinha visto ocupada com Corsas e carripanas. É claro que me lembrei logo do meu amigo. Só que, bem vistas as coisas, pode ter sido apenas uma coincidência. Uma coincidência que eu quero crer que tenha sido isso mesmo e não o que o meu amigo me quis fazer crer. [Originalmente publicado em 31-10-2001]
SEM REMÉDIO. O Serviço de Informação e Segurança está «minado por desconfianças», «politicamente desprezado», «publicamente humilhado» e «não pode descer mais na escala da descredibilização». Os serviços de informação militares idem aspas. A PJ é uma «quinta de poder pessoal» e «uma rede de ilhas em que cada soba dita a vontade que mais lhe convém». O retrato é de Moita Flores (DN de 1 de Outubro). Dois dias depois, ainda no DN, Graça Moura dizia que «as Forças Armadas estão insatisfeitas e a braços com uma crise profunda». Que as forças da ordem estão descontentes e os serviços secretos não funcionam. Enfim, um cenário que me fez lembrar o retrato que Eça de Queirós, n'As Farpas, traçou do então exército e marinha portugueses. Questionando os milhares de contos atribuídos pelo Orçamento de Estado às forças armadas, Eça começa por dizer, do exército, que o armamento «é inteiramente ineficaz». E logo a seguir acrescenta: «Está provado cientificamente que, depois de meia hora de fogo, as espingardas do exército passariam para o inimigo — rebentadas em estilhaços. Quando não rebentem, o seu alcance é humanitário. Queremos dizer — as balas ficam a meio caminho do inimigo.» Prossegue o retrato demolidor: «Verdadeiramente o nosso exército só poderia alcançar o inimigo — correndo atrás dele: mas para isso faltam-lhe sapatos!». A artilharia, por exemplo, era uma vergonha: «(...) há um só meio de ela prejudicar o inimigo: é fazê-lo prisioneiro, colocá-lo amarrado a quatro palmos da peça, procurar não errar o tiro, e conseguir assim inutilizar-lhe a barretina!». Pouco ou nada havia que se aproveitasse: «O equipamento é nulo. Nem tendas, nem cantinas, nem transportes.» Para cúmulo, os regimentos não tinham instrução nem pontaria. Restava «o bom senso fechado, a fronteira aberta, e umas peças de artilharia a que deu fogo Camões — o que é poético, mas frágil!». Na marinha, pouco mais havia que «uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, a mastreação carunchosa (...)». As embarcações estavam uma lástima. A Pedro Nunes, por exemplo, estava em tal estado que, vendida, dava «uma soma que o pudor nos impede de escrever». Mas foi dando uma ideia: «O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes — mas não pode pedir troco.» Havia outras com estranhas manias: «A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais de marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. A Mindelo é um esquife — a hélice.» E as que se cansavam depressa: «A Napier saiu um dia para uma possessão (...) mas exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier insensível, como morta, não se mexeu.» Enfim, a esquadra portuguesa estava reduzida a «uma colecção de jangadas disfarçadas!». Uma humilhação nacional: «(...) este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!». Ainda se tentou modernizar a frota. O Governo português, «morgado de província ingénuo e generoso», comprou por mil libras a corveta Hawks aos ingleses, que a tinham posto à venda pelo valor da madeira. Mas quando a quis usar, «desfez-se-lhe nas mãos!». Tentou-se, depois, construir, mas o Arsenal não tinha «nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção». O resultado seria um desastre: com «idade de meses, tinha o fundo podre!». Gastou-se 87 contos no conserto mas, estranhamente, o fundo voltou a apodrecer. Podridão que, recorda, «começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!». Enfim, a fama dos portugueses chegou longe: «Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés — e com o lenço no nariz.» Humilhado, o Arsenal tentou a modalidade da lancha. Novo desastre: «Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas... E a lancha não anda!» De repente começou a mover-se. Só que não como se esperava: «A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia. Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia. (...) O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar — puxada a bois. O País riu durante um mês.» [Originalmente publicado em 23-10-2001]
MATAR OU MORRER. O sector intelectual de Lisboa do Partido Comunista concluiu que não há Estado mais terrorista que os EUA. Além do terrorismo militar, os americanos não hesitam em recorrer ao «terrorismo económico» ou «agro-alimentar» para defender os seus interesses, dizem os comunistas. Ficamos assim a saber que, tal como dantes os comunistas comiam criancinhas, os americanos são hoje terroristas. Mas não ficaram por aqui os disparates das ilustres cabecinhas. Num acesso de imaginação delirante, um tal João Vieira chegou a dizer que a ajuda humanitária distribuída pelos EUA no Afeganistão não era comida mas, imaginem, «produtos agrícolas americanos, para se abrir um novo mercado e criar o hábito do seu consumo». Depois de ter sustentado que o combate ao terrorismo tem de passar pela redução das desigualdades e do fosso entre pobres e ricos, o PC vem agora dizer que os americanos são mais terroristas do que ninguém. Amanhã, sabe-se lá, vão exigir que os americanos sejam exterminados. Também o Bloco de Esquerda tem umas ideias curiosas acerca do que os americanos não devem fazer para combater o terrorismo e, de caminho, defenderem a sua gente. Sobre o que deve ser feito, o Bloco limita-se a dizer que deve ser a ONU a conduzir o processo. Mesmo reconhecendo que as Nações Unidas tem tido «falta de fôlego» para resolver os conflitos. Mesmo reconhecendo que a ONU tem sido «crescentemente desvalorizada» por todos. Mesmo reconhecendo que a ONU tem estado em «submissão às grandes potências». Mesmo sabendo que a ONU, após uma semana de discussão, nem sequer chegou a um consenso sobre o que é o terrorismo. É claro que os «bloquistas» não avançaram a mais leve ideia de como a ONU deve combater o terrorismo, deixando claro que não sabem do que falam nem isso é importante. A única certeza que o Bloco tem é que os americanos, perante os ataques de 11 de Setembro, deviam ficar de braços cruzados. Ou então tomarem medidas destinadas a reduzir as desigualdades e o fosso entre pobres e ricos, que o Bloco não se cansa de apregoar como sendo a raiz de todos os males. Como se a destruição das milhares de estátuas de buda pelos talibans, há meio ano atrás, não chegasse e sobrasse para mostrar que o argumento das desigualdades é um perfeito disparate. Como se ficar de braços cruzados não fosse mais perigoso do que partir para uma guerra e suas consequências. É claro que o objectivo do Bloco é dar largas ao seu anti-americanismo primário e, de caminho, dizer que a guerra não é a melhor solução. Só que, queiramos ou não, a questão que os americanos têm em mãos não é uma mera abstracção: é uma questão de vida ou de morte, de matar ou morrer. Assim sendo, torna-se claro que só há uma solução: agir já e discutir depois. Não aceitar esta evidência só mesmo a "esquerda paleolítica" de que fala Miguel Sousa Tavares. [Originalmente publicado em 15-10-2001]
SÃO ROSAS. A tragédia americana de 11 de Setembro continua a perturbar inúmeras cabecinhas. Embora não se lhe possa atribuir o exclusivo dos disparates, Fernando Rosas foi, seguramente, dos que mais contribuiu para o ror de asneiras que por aí se disseram. Defendeu o ex-candidato à Presidência da República, na sua última crónica do Público, algumas teses bem curiosas. Em primeiro lugar, um conceito de terrorismo. O terrorismo que atingiu os EUA «não defende os mais pobres e os mais fracos» e «não luta por um mundo menos iníquo e mais justo», disse ele. Além disso, acrescentou, «o terrorismo fundamentalista não é desculpável». Se bem entendi, quer isto dizer que o terrorismo seria desculpável se defendesse os pobres e os mais fracos e não fosse fundamentalista. Interessante. Fernando Rosas diz depois que «a retaliação militar e política para que o Governo dos EUA está a arrastar a UE (...) é a pior e a mais perigosa das respostas a esta crucial interrogação». Será, senhor Rosas. Mas eu pergunto: qual será então a melhor resposta? Dar dinheiro aos agressores? Um raspanete? Ficar de braços cruzados? Prossegue depois a sua cruzada dizendo que os americanos se preparam para entrar numa «guerra contra incertos», onde o «inimigo não coincide com um regime, um Estado ou um território precisos». E que, assim sendo, se estabelece «um novo e inquietante conceito de política internacional». Será inquietante, senhor Rosas. Mas eu pergunto: qual é a diferença entre um bando de criminosos que actua por contra própria e um país que comprovadamente os alberga e protege? Diz depois que a resposta dos EUA é um gesto de vingança e «está marcada por traços xenófobos, cruzadistas e de arrogância civilizacional». Ou seja, antecipa qual vai ser a resposta dos EUA quando só hoje, mais de uma semana depois, se começa a saber. E depois recorre ao insulto para dizer o que visivelmente não sabe ou finge ignorar. Será que o presidente Bush já não deixou bem claro que «a cruzada» americana não é contra o mundo islâmico? Será que o senhor sabe que há mais de três milhões de árabo-americanos e mais de seis milhões de muçulmanos a residir nos EUA? Será que o senhor sabe que todos estes cidadãos têm direito a voto e podem, por isso, penalizar o senhor Bush numa futura eleição? Diz depois que os «bombardeamentos cirúrgicos» ainda não começaram e já há milhares de vítimas da fome e da doença no Afeganistão, devido à fuga das ONGs. E eu pergunto: se os taliban precisam das ONGs para sobreviver, a culpa é dos americanos? Não será devido a uma guerra que dura há mais de duas dezenas de anos? Ou, em última análise, à pobreza que eles próprios criaram? Termina dizendo que a guerra americana será inútil operacionalmente e «moralmente injusta». E acrescenta numa frase de efeito: «Hoje, os que se opõem ao terrorismo islâmico e ao contraterror retaliatório não capitulam, combatem.» Comovente, senhor Rosas. Mas quem são os combatentes e o que estão a fazer? Onde estão e que resultados já alcançaram? O senhor defende, perante os acontecimentos de 11 de Setembro, que os americanos deviam ficar de braços cruzados à espera que alguém (talvez o senhor) lhes diga o que devem fazer. Meu caro Fernando Rosas: os americanos podem ser arrogantes e ter um presidente que só diz disparates. Mas salta à vista de um cego que têm toda a legitimidade para se defenderem. O resto é pura retórica e anti-americanismo primário, que no seu caso o impedem de ver o que está à frente dos olhos. [Originalmente publicado em 7-10-2001]
AUTO DEIXA ANDAR. Quatro meses após o que se presume terem sido de intensa reflexão, as televisões portuguesas e a Alta Autoridade para a Comunicação Social chegaram, finalmente, a um «acordo de auto-regulação». Segundo os jornais, o acordo prevê mudanças nos chamados reality shows (qualquer coisa à volta da privacidade), o compromisso de reforçar «os mecanismos que garantam qualidade à informação e clarifiquem os critérios jornalísticos» e mais umas miudezas de que já me não lembro. Inquirido sobre o desfecho do negócio, o doutor Balsemão reconheceu que foi «o acordo possível». O presidente da Alta Autoridade realçou que o acordo fornece «traves mestras» e faz com que a lei tenha agora «um valor moral mais forte». Paes do Amaral, da TVI, advertiu que «mais do que isto seria limitar a liberdade de expressão no audiovisual». João Carlos Silva, da RTP, também disse qualquer coisa, mas confesso que já não me lembro o quê. Do que me lembro perfeitamente é de tudo ter acabado em bem, suponho que a bem das TVs e da própria Nação. Com certeza que tudo isto não passou de mais um exemplo destinado a ilustrar a famosíssima tese de que é necessário que alguma coisa se mude para que tudo fique na mesma. Mas, bem vistas as coisas, que outra coisa seria de esperar? [Originalmente publicado em 30-9-2001]
IMPOSSÍVEL. Numa altura em que já toda a gente disse tudo o que havia a dizer, inclusive um ror de exageros e não menos disparates, que posso eu acrescentar sobre a tragédia americana? Que me é impossível esquecer que tudo isto se passou à minha porta? Que me é impossível não reparar que, visto daqui, algo está profundamente errado na paisagem de Manhattan? Que me é impossível esquecer os milhares de encurralados naquelas torres do inferno e os que jogaram a vida por uma janela? Que me é impossível não pensar na loucura da gente que mata em nome de deus e na gente que morre por causa dele? Que me é impossível não pensar que à barbárie se seguirá nova barbárie, ao sangue se seguirá ainda mais sangue, à cegueira se seguirá nova cegueira? Que me é impossível esquecer que pouco mais de meia dúzia de gatos pingados colocou todo um império de cócoras? Que me é impossível esquecer que os famosíssimos «serviços de inteligência» não têm, afinal, inteligência alguma? Que me é impossível não pensar que toda esta enorme tragédia podia ter sido ainda pior? Que me é impossível não pensar que tudo isto vai acabar mal? [Originalmente publicado em 20-9-2001]
XUTOS E PONTAPÉS. Conhecido o adiamento, pelo Governo, do projecto de instalação das famosas «salas de chuto», o semanário Expresso voltou a defender, em editorial, que é uma asneira a criação das ditas. Segundo o jornal da Duque de Palmela, para quem a única atitude admissível perante a questão da droga é o «combate sem tréguas», «sem cedências nem condescendências», é uma asneira a criação das «salas de chuto» porque a ideia «assenta em pressupostos errados». Além disso, prossegue o jornal, «está provado que a droga só se combate com medidas duríssimas — e não com gestos de complacência que visam minimizar-lhe os efeitos mas não resolvem nada». Ficamos assim a saber, pela voz autorizada do jornal do doutor Balsemão, que existem provas de que a única forma eficaz de combater a droga é usando medidas duríssimas, supõe-se mesmo que com a pena de morte. Duvidam? Eu também julgava que todas as formas duríssimas usadas até agora serviram apenas para derreter milhões e fortalecer ainda mais o poder dos traficantes. Mas se o arquitecto Saraiva diz que assim é e ter provas do que diz, quem sou eu para duvidar? [Originalmente publicado em 8-9-2001]
CÃO QUE LADRA. Um secretário de Estado de não sei que ministério garantiu, há dias, que «as coimas vão ser mesmo aplicadas» caso a lei não seja cumprida. Uma juíza de não sei que tribunal avisou, esta semana, que os infractores vão ser mesmo obrigados a desembolsar 7500 contos por cada atropelo à lei. Outra juíza advertiu, há dois meses, que há agora legislação para ser cumprida e que «a tradição não vai ficar acima da lei». É mais um episódio do folhetim de Barrancos, que o autarca local já garantiu ir decorrer «nos moldes habituais». Ou seja, vai haver matança e o correspondente atropelo à lei. Isto significa que, para começar, a autoridade do Estado vai ser de novo enxovalhada. Depois, a Justiça há-de decidir numa primeira fase umas condenações que posteriormente há-de anular. Evidentemente que não por se tratar da tradição, como bem advertiu a senhora juíza, mas porque há-de ser difícil descobrir e muito menos provar quem são os responsáveis pelo incumprimento da lei. Exactamente como aconteceu no ano passado, em que a Justiça nem sequer conseguiu identificar os matadores que toda a gente teve oportunidade de ver. [Originalmente publicado em 25-8-2001]
JORNALISMO DE REFERÊNCIA. Também eu estou a seguir pelos jornais o folhetim do casório do filósofo Carrilho com a menina Bárbara. Ou melhor, o casório que não houve por causa da muito mal contada história que se terá passado na República Dominicana. O último episódio de tão interessante novela, que teve honras de manchete em O Independente e primeira página no Diário de Notícias, revela que as supostas fotografias exclusivas do Expresso foram parar à Internet ninguém sabe como e que o jornal de Balsemão já apresentou queixa à judite. Fiquei ainda a saber que, afinal, não houve o tão desejado casório, e que o caso de Punta Cana é capaz de dar uma novela. Mas nem tudo é notícia nos jornais de referência. O romântico passeio de Portas e Cinha Jardim nos areais algarvios, que o fadista João Braga tão bem descreveu no Diário de Notícias, desapareceu das notícias. Haverá ali caso? Fotografias do encontro em algum site da Internet? Os jornais nada dizem. Referem apenas que Portas não comenta as declarações de Monteiro, que poucos sabem quem é e ninguém sabe o que disse. E eu não percebo porquê esta falta de interesse dos nossos jornais de referência. Afinal, se o casório de Manuel Maria e Bárbara Guimarães é do interesse público (ou do interesse do público, como queiram), porque não há-de sê-lo o romântico passeio da dupla Portas/Jardim? [Originalmente publicado em 10-8-2001]
O CHÃO DA POLÍTICA. Depois de ter despachado uma revoada de copos no famoso Chão da Lagoa, que sempre deixam a dúvida se o homem estava ou não no seu juízo perfeito, o doutor Alberto João voltou a acenar com a bandeira da independência. O aguardado sermão do presidente madeirense surgiu poucos dias após ter afirmado que se recusa a aplicar o programa de redução da despesa pública da Madeira pela simples razão de que, disse ele, não está disposto a pagar pelos erros dos outros. E já depois de ter dito também, uns dias antes e de uma forma que roçou o insulto, que o «buraco» de 38 milhões de contos detectado pelo Tribunal de Contas na dívida pública da Madeira «deve ser confusão com o buraco do ozono». O todo poderoso presidente da Região Autónoma da Madeira, que achou muita graça ao seu confrade Ramos quando este afirmou, entre outras pérolas, que os portugueses do Continente são uns «miseráveis» e uns «coitadinhos», continua a ter a suprema lata de ameaçar com a independência sempre que alguém lhe diz umas verdades que não gosta de ouvir. Dizem-me que o objectivo do homem é só assustar, embora ninguém me saiba dizer exactamente quem pretende ele assustar. Os opositores da Madeira? Os políticos do Continente? Seria bom que a questão fosse rápida e devidamente esclarecida. Afinal, tirando o doutor Alberto João, para quem as coisas estão muito bem como estão e a questão da independência não passa de uma vergonhosa chantagem, quem tem medo da independência da Madeira? [Originalmente publicado em 4-8-2001]
POLITIQUICE. Se dúvidas houvesse que o doutor Portas pretende chegar ao poder a qualquer preço, as recentes declarações ao Times de Londres aí estão para as desfazer. Disse Portas àquele diário britânico que, com a entrada em vigor da lei que descriminaliza o consumo de drogas leves, Portugal se transformou num país que promete aos turistas «sol, praias e qualquer droga de que se goste». E que, a partir de agora, «haverá aviões cheios de estudantes dirigindo-se ao Algarve para fumar marijuana e coisas piores». Evidentemente que são afirmações irresponsáveis, como já disse o Governo, para além de demagógicas. Irresponsáveis porque afectam claramente a imagem do País no estrangeiro, como muito bem sabe o doutor Portas. Demagógicas porque ninguém acredita que assim seja, já que a lei que veio descriminalizar o consumo de droga se limitou a dar letra de forma a uma situação que, na prática, já existia. De maneira que a única conclusão a tirar desta história é que o doutor Portas enveredou, de novo, pela politiquice só para aparecer nos jornais. Ou então está a falar a sério e, nesse caso, é confrangedor saber que não faz a mínima ideia do que está a dizer. [Originalmente publicado em 25-7-2001]
CONVERSA EM FAMÍLIA. A última entrevista de António Guterres à RTP continua a dar que falar. Não propriamente o conteúdo da entrevista, que nada de novo terá revelado, mas a forma como foi conduzida ou as peripécias que a terão rodeado. Já vou na terceira pessoa a quem ouço dizer, nos jornais, que a entrevista de Maria Elisa esteve envolta em situações pouco claras, para não dizer suspeitas. Dizem alguns que assessores do primeiro-ministro terão chegado ao ponto de ditar as regras do jogo. Dizem outros que foi uma espécie de «conversa em família». Eu não vi a entrevista mas, se visse, provavelmente não teria detectado a marosca, se é que houve marosca, embora tudo me leve a crer que alguma coisa terá havido. Mas se não houve marosca seguramente que a história está muito mal contada. De maneira que seria bom que Maria Elisa esclarecesse quanto antes o que realmente se passou. Para bem de todos mas, sobretudo, dela própria. [Originalmente publicado em 20-7-2001]
ESTAMOS PERDIDOS. Um médico romeno acaba de inventar uma geringonça capaz de proporcionar 16 orgasmos por minuto. Sim, dezasseis orgasmos por minuto. Segundo a criatura, durante a fase de testes houve mulheres que chegaram a reclamar da intensidade dos orgasmos, embora se desconheça que experiência de orgasmos têm estas mulheres e quais os métodos utilizados para atingirem os ditos. A coisa funciona à base de choques eléctricos na espinha, explicou o especialista, ressalvando que de pequena intensidade. Até as mulheres virgens podem usar o método «sem risco de perderem a virgindade física», disse o médico romeno, garantindo que a sua genial invenção «é melhor para uma mulher do que ter 30 homens». Recorde-se que já em Fevereiro deste ano um cirurgião tinha anunciado um sistema semelhante, embora sem descer ao pormenor de revelar a quantidade de orgasmos por minuto de que a coisa será capaz de proporcionar e quantos homens serão necessários para superar o invento. De maneira que estão criadas todas as condições para que ao macho só venha a restar o papel de ligar e desligar a ficha. E a partir daí estamos perdidos. [Originalmente publicado em 10-7-2001]
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